O novo ano apresenta grandes desafios para a economia brasileira, tanto do ponto de vista do quadro internacional quanto do doméstico

O novo ano apresenta grandes desafios para a economia brasileira, tanto do ponto de vista do quadro internacional quanto do doméstico. É preciso utilizar todos os instrumentos de política econômica disponíveis para amenizar os impactos da crise externa. O maior risco implícito na passividade da política econômica é absorver uma parcela maior do que nos caberia dos impactos exógenos adversos. No cenário internacional, o agravamento da crise europeia, com risco de recessão naqueles países, o baixo crescimento de EUA e Japão e seu efeito nos países em desenvolvimento – que tenderão a crescer menos – implicam impactos significativos para o Brasil. Com uma parcela expressiva da economia internacional crescendo menos e com a crise de confiança em muitos países, há implicações diretas para as demais economias.

Os fluxos de crédito e financiamento tendem a se tornar mais escassos. Há uma fuga para a qualidade nos fluxos de capitais, o que faz com que cresça a aversão ao risco e, em consequência, haja menos recursos disponíveis. Menor crescimento também impacta os preços das commodities, com reflexos diretos não só na balança comercial brasileira, mas gerando um adiamento em projetos de novos investimentos de empresas que atuam naqueles setores.

No mercado doméstico, há forte retração na produção industrial, que decorre não só da queda de ritmo de crescimento do PIB, de mais de 9%, no 2.º trimestre de 2010, para zero, no 3.º trimestre de 2011, mas também da perda de competitividade diante de concorrentes de outros países, em razão das desvantagens de nível de câmbio, tributação, juros e outros fatores sistêmicos. O resultado é que parcela crescente do consumo doméstico tem sido atendida por importações, que têm substituído a produção local. Esse efeito é especialmente sentido em setores dinâmicos, como o eletroeletrônico, por exemplo, em que o déficit comercial do ano cresceu 18%, atingindo US$ 32 bilhões.

Portanto, a perversa combinação de um desaquecimento do mercado interno e do aumento das importações, especialmente de produtos originários de países asiáticos, está a exigir medidas de política econômica. O Banco Central (BC) e a equipe econômica estão certos em reduzir os juros, diminuir as amarras das medidas macroprudenciais adotadas e baixar a carga de impostos. Mas os incentivos não devem se restringir apenas a uma gama de produtos, mas às máquinas, equipamentos e outros fatores importantes para os investimentos.

Também é preciso destacar que todos os esforços de melhora de fatores de competitividade sistêmica, embora válidos, não resolvem as desvantagens da nossa economia. Quanto ao crédito e financiamento, por exemplo, embora os fabricantes brasileiros contem com recursos do BNDES, que oferece custos e condições melhores do que os disponíveis no mercado, eles ainda estão muito aquém do que é oferecido aos concorrentes internacionais por bancos estatais da China e da Coreia do Sul, por exemplo, a custos próximos de zero.

A desvantagem cambial de um real ainda sobrevalorizado, comparativamente ao dólar e outras moedas, tem sido determinante para uma perda estimada em mais de 40%. A questão é que, enquanto o real permanece valorizado em cerca de 20%, há países que mantêm suas moedas desvalorizadas, especialmente diante do quadro de crise.

Os incentivos à produção local são necessários e válidos, mas ainda são insuficientes para fazer frente à enorme diferença cambial. Ou seja, o problema da competitividade decorrente do câmbio só pode ser resolvida no seu próprio âmbito, embora outras medidas de competitividade sejam necessárias.

Nesse sentido, além de desafios, 2012 também representa uma oportunidade de finalmente enfrentarmos alguns dos verdadeiros entraves ao desenvolvimento industrial brasileiro. Trata-se de um das características da crise, que nos obriga a sair da zona de conforto e recriar nossas condições de sucesso. Um feliz ano-novo a todos!

Fonte: O Estado de S. Paulo