Este detalhado artigo foi escrito por Eugênio Pitzahn Jr e Adriane Roglin, gerente e consultora de projetos da Consufor, respectivamente

Locomotiva do Produto Interno Bruto – PIB nacional nos últimos anos, o Agronegócio apresentou significativo crescimento de seu valor bruto da produção. Parte deste crescimento foi devido ao aumento do preço internacional das commodities e câmbio favorável às exportações, mas outra parte deveu-se a expansão da área plantada e aumento de produtividade. De acordo com os dados do IBGE, nos últimos 5 anos, a produção física dos seis principais produtos do Agronegócio nacional (Aves, Bovinos, Suínos, Tabaco, Milho e Soja) aumentou em até 67% (Figura 1).

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Como pode ser observado o cultivo de grãos teve o maior crescimento, motivado em parte pela entrada de novas áreas das fronteiras agrícolas e pelo aumento de produtividade nas áreas já cultivadas. Houve também aumento da produção superior a 10%, no mesmo período, nos segmentos de Aves, Suínos e Tabaco. Apenas o segmento de Bovinos ficou abaixo deste patamar. Isso ocorreu em parte pela necessidade de tempo para readequar as matrizes aos novos níveis de produção. Ou seja, para aumentar a produção de bois no futuro será necessário que em algum momento parte das vacas para abate seja redirecionada ao grupo de matrizes, num ciclo onde em cerca de 3-4 anos a produção seja maior que a atual.

Deste modo, sendo o Brasil um país de dimensões continentais, não há dúvidas de que as diferenças regionais (culturas, tradições, perfis socioeconômicos e etc.) afetam diretamente o perfil da produção do agronegócio brasileiro. A Figura 2 ilustra esta variação.

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1) Região Sul: tem participação na produção de todos os produtos analisados, com destaque para os segmentos de Aves, Suínos e Tabaco, em grande parte devido ao perfil regional onde predominam pequenas e médias propriedades administradas em ambiente familiar, integrados ou não a cooperativas agroindustriais. Apesar dos demais segmentos também serem representativos em âmbito nacional, a região não responde pela maior parte da produção dos mesmos.

2) Região Centro Oeste: considerada uma fronteira agrícola em consolidação, essa região possui um perfil produtivo de larga escala, com predomínio de propriedades de grande porte e condição topográfica muito favorável à mecanização. A exceção do Tabaco tem significativa participação em todos os segmentos agroindustriais considerados. Nos últimos anos a região vem recebendo investimentos para a produção de carnes (Aves e Suínos), que visam aproveitar a grande oferta de grãos utilizados para rações e desta forma reduzir seus custos de produção.

3) Região Norte e Nordeste: o resultado da confluência entre as regiões Norte (Tocantins) e Nordeste (Bahia, Maranhão e Piauí), reconhecida como a nova fronteira agrícola do Brasil, o MATOPIBA vem apresentando um grande potencial para ser explorado. A disponibilidade de áreas para expansão agrícola ainda é significativa na região, principalmente nas regiões de altitude, e com isso a participação de Estados não tradicionais na produção nacional vem aumentando ano a ano. A exemplo do que ocorreu na Região Centro Oeste, o desbravamento se dá pela produção de grãos e ao longo do tempo investimentos agroindustriais do setor de carnes são esperados.

4) Sudeste: a região apresenta um mercado já consolidado para os segmentos de Aves, Suínos e Bovinos, com significativa participação na produção nacional. Entretanto, possui pouca representatividade no segmento de grãos, em função de grande parte da área produtiva ser destinada a produção de cana de açúcar ou outros cultivos de menor escala.

Todos os segmentos do agronegócio destacados anteriormente demandam, em alguma parte do processo de industrialização, seja no processamento primário ou secundário, um produto adicional que via de regra ainda é tratado de forma marginal: a biomassa de madeira (lenha). Esta, por sua vez, é utilizada em caldeiras e/ou secadores para geração de energia térmica e, até poucos anos, era proveniente de fontes mistas, ou seja, florestas plantadas e áreas em processo de desmatamento.

Atualmente o uso de biomassa de madeira oriunda de áreas em processo de desmatamento se tornou muito restrito e as florestas plantadas vêm respondendo por uma parcela significativa desse volume demandado pelos segmentos analisados.

Desta forma, compilando as produções regionais com os consumos específicos identificados para cada segmento produtivo e região, a CONSUFOR estimou que em 2015 apenas os segmentos analisados demandaram cerca de 23 milhões de m³ de lenha para geração de energia térmica. Destaque para soja e milho que juntas representam 47% do total de consumo (Figura 3).

Para efeito de exercício, considerando a hipótese de que 100% deste montante tenha sido originado de florestas plantadas de Eucalyptus, a área plantada para abastecimento desta demanda em regime de produção sustentável seria da ordem de 720 mil hectares, ou seja, cerca de 13% de toda área plantada de Eucalyptus no país atualmente (5,6 milhões de hectares).

E esta demanda vai aumentar! Segundo as projeções da FAO, a produção dos segmentos analisados deve ter um crescimento exponencial nos próximos cinco anos, principalmente para Soja, Suínos e Aves (Figura 4). Deste modo, a demanda de lenha para geração de energia térmica nesses segmentos deverá ser cerca de 3 milhões de m³ a mais do que a demanda atual (Figura 5).

Fonte do IBGE (Base 2015) e FAO, baseado em cálculos da CONSUFOR
Fonte do IBGE (Base 2015) e FAO, baseado em cálculos da CONSUFOR
Fonte do IBGE (Base 2015) e FAO, baseado em cálculos da CONSUFOR
Fonte do IBGE (Base 2015) e FAO, baseado em cálculos da CONSUFOR

ara atendimento da demanda adicional em 2020, apenas desses segmentos do agronegócio analisados, seria necessário o plantio imediato de pelo menos mais 100 mil hectares de Eucalyptus, considerando que os plantios atuais já estejam comprometidos com uma demanda industrial, mas não só isso! Esta floresta deveria ser plantada e administrada nos moldes adotados pelas grandes empresas do setor florestal de modo a garantir uma produtividade satisfatória. Ou seja, plantio deveria ser conduzido em áreas com condições edafoclimáticas favoráveis e com os tratos silviculturais adequados, além disso, é importante a escolha do melhor manejo para o desenvolvimento adequado da floresta.

A Figura 6 apresenta a distribuição atual das florestas plantadas no Brasil, e como podemos observar, a maior parcela dos plantios está concentrada nas regiões sul, sudeste e centro oeste do Brasil.

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Por: Eugênio Pitzahn Jr e Adriane Roglin