O setor florestal brasileiro tem vivido nos últimos 10 anos uma agitação considerável, desde a produção de mudas, passando por revoluções nos plantios, alguns em tempo recorde, até as grandes máquinas de colheita

Pedro Francio Filho
Pedro Francio Filho

Durante décadas, as grandes empresas estiveram na vanguarda da tecnologia e produtividade, mas detinham muito conhecimento em sigilo. Porém, na última década, por uma demanda crescente de madeira, várias indústrias tiveram que criar programas de fomento e desenvolvimento florestal com produtores rurais.

Além disso, devido a um déficit de matéria-prima em diversas regiões do país, o governo federal criou políticas de apoio, e algumas linhas de crédito que acabaram exigindo uma estrutura para concretizar esses planos. Surgiram, então, mais universidades, vagas de cursos técnicos e superiores, mais profissionais, empresas ligadas ao setor e pesquisas. A partir deste período, a silvicultura se tornou pública, aberta e mais conhecida pela sociedade.

Passou a ter uma amplitude de pesquisa, difusão de tecnologia, convênios publico-privado e a velocidade da informação tomou um rumo sem volta. O setor florestal brasileiro tem vivido nos últimos 10 anos uma agitação considerável, desde a produção de mudas, passando por revoluções nos plantios, alguns em tempo recorde, até as grandes máquinas de colheita. Tanto essa evolução, quanto a rentabilidade tem chamado atenção de investidores, desde profissionais liberais até enormes aportes de capital para a construção de grandes indústrias, e plantios a perder de vista. De fato, um investimento interessante, mas se realizado de forma equivocada, sem planejamento ou a devida engenharia, pode gerar surpresas lastimáveis.

As espécies florestais exóticas ou nativas podem ter cuidados parecidos na silvicultura, cada uma com peculiaridades, mas neste artigo o foco será o cultivo de eucalipto. Com grande plasticidade ecológica, potencial de adaptação, estabelecimento, crescimento e produção às mais variadas condições edafoclimáticas do território nacional, além da elevada produtividade.

Para se realizar a implantação florestal devemos considerar vários fatores importantes: localização do terreno; reconhecimento da área; levantamento topográfico; mapeamento do solo; análises químicas e físicas do solo; levantamento da vegetação; condições edafoclimáticas regionais; distribuição de reservas legais e áreas de preservação permanente; escolha da espécie e/ou procedência; estradas, aceiros e talhonamento; cercas divisórias; limpeza da área; controle de pragas; correção do solo, preparo do solo; escolha do espaçamento; fertilização mineral; plantio; replantio; e tratos silviculturais.

A localização do terreno servirá para realizar o plano de negócio, avaliar a viabilidade e logística do empreendimento. O reconhecimento da área tem por finalidade conhecer e avaliar as condições locais para certificar se atende às exigências pré-determinadas para o projeto a ser desenvolvido.

Análises estratificadas químicas e físicas do solo servem para conhecer a fertilidade, estrutura física, camadas adensadas, solo pedregoso, e áreas sujeitas à erosão. Sem essas informações é impossível fazer uma recomendação correta e precisa da área, mas isso normalmente ocorre na silvicultura convencional, onde são descartadas as análises e utilizadas às conhecidas “receitas de bolo”.

Precisam-se utilizar metodologias mais inteligentes de correção e fertilização, respeitando os 16 elementos químicos essenciais em equilíbrio. As correções por meio de doses adequadas, formato de aplicação conforme necessidade de gesso, calcário, fosfato natural reativo e outros fertilizantes são fundamentais.

A penetrometria é usada para medir a compactação do solo, um atributo físico amplamente estudado principalmente pelo fato de gerar queda de produtividade devido ao impedimento mecânico no crescimento de raízes. O mapeamento é fundamental para a tomada de decisão desde planejamento, gerenciamento das células produtivas, levantamento de rendimento operacional até a colheita da madeira, e deve ser feito por profissionais.

A escolha da espécie e qual material genético deverá ser utilizado está intimamente ligada ao objetivo final a que se destina a madeira e a aptidão silvícola local. Clones ou sementes melhoradas devem ser preferidas, mesmo com custo superior, devem ser provenientes de locais com características do clima, do solo e geográficas semelhantes às da área que pretende plantar.

Precisa-se ser minucioso na escolha do material genético. Existem espécies melhoradas e adaptas tanto a neve quanto a situações de seca e baixíssima precipitação. Estes melhoramentos estão direcionados basicamente a produção de celulose, energia, ou serraria.

A locação e a construção das estradas e aceiros definem o tamanho e a forma dos talhões e devem levar em consideração aspectos de conservação do solo, planialtimetria da área, proteção e colheita da floresta plantada, principalmente em áreas de topografia acidentada, fundamental para evitar assoreamentos e voçorocas, além de facilitar as atividades realizadas durante as operações.

As operações de limpeza variam em função do tipo de vegetação e topografia, podendo ser manuais, mecanizadas ou químicas. Para maior eficiência nos herbicidas pós-emergentes utilizados antes do plantio deve-se levantar quais são as plantas infestantes, saber qual herbicida utilizar, dosagem, estádio fenológico adequado, que facilite a absorção e translocação do produto.

O mais indicado é utilizar herbicidas com penetração mais rápida com menor exposição às chuvas; melhor translocação causando morte efetiva das plantas daninhas até a raiz; formulação concentrada; pouca formação de espuma. Vale lembrar a importância de usar água limpa, pHmetro, e na aplicação, tecnologias como bicos com indução de ar, termo higrômetro, dentre outros detalhes. No controle da matocompetição pós-plantio é importante utilizar-se herbicidas pré-emergentes seletivos para controlar a sementeira. Na entrelinha, monitorar a área constantemente, e fazer o controle das plantas invasoras, seja através de roçadas ou controle químico. O controle com herbicidas pós-emergentes, barra protegida ou chapéu napoleônico, tem se mostrado mais eficiente.

Para a escolha do espaçamento em maciços, deve-se ter preocupação quanto à espécie, grau de melhoramento, fertilidade do solo e objetivo do plantio, mas principalmente a precipitação. Normalmente, para o eucalipto, o espaçamento mais recomendado é o de 3 m (metros) entre as linhas e 3 m entre as mudas, ou seja, 9 m² (metros quadrados) por planta, o que corresponde a 1.111 mudas por ha (hectare). Em alguns casos, precisa-se aumentar o espaçamento para a utilização de máquinas nas entre linhas, por exemplo, 4 x 3 m, 3,6 x 2,5 m, dentre outros. A engenharia que envolve a silvicultura deve ser tomada levando sempre em consideração os dados e a metragem quadrada por planta. Portanto, não existe regra única!

As mudas devem ser adquiridas em viveiros confiáveis e de qualidade conhecida. Na expedição devem estar rustificadas, manter o vigor, sistema radicular integro, estarem protegidas de vento, frio e compactação durante o transporte. O controle de pragas existentes deve ser executado antes, durante e pós-plantio.

O plantio deve ser realizado no início e durante o período chuvoso, esta época pode ir de setembro a janeiro, dependendo da região. Com a utilização do hidrogel pode-se plantar em qualquer época do ano, respeitando outros fatores além da umidade e temperatura, para evitar o cozimento das raízes. O replantio deve ser evitado, e quando feito, precisa ser realizado no máximo 30 dias após o plantio, utilizando-se mudas com o mesmo padrão de qualidade das plantadas inicialmente.

No caso de uso múltiplo da madeira, a poda precisa ser realizada, utilizando-se serrinhas profissionais de dupla face, ou tesouras próprias para esta atividade. A poda, desrama ou desgalha deve ser realizada no período seco, bem rente ao tronco, para evitar nodulação e aumentar o valor agregado da madeira, produzindo a clear-wood, madeira limpa de forma manejada na silvicultura. Para a produção de biomassa não é necessário realizar a poda.

A colheita da madeira deve ser planejada no inicio do projeto. Para determinar a intervenção é preciso conhecer o Incremento Médio Anual e a corrente da floresta. Esta análise é possível mediante a realização de inventários contínuos. Se a finalidade do projeto for biomassa os ciclos são curtos, de 5 a 7 anos, e são realizados cortes rasos. Mas se o objetivo for uso múltiplo são feitos desbastes com o objetivo de estimular o crescimento das árvores remanescentes e aumentar a produção da madeira utilizável, que resultam em vários produtos.

As produtividades médias do Brasil estão muito abaixo do seu potencial produtivo. Não adianta usar somente o melhor clone, sem atentar para o ambiente de produção, pois a genética representa apenas uma parte do processo, no máximo 50%. Relembre uma regra básica: F (Fenótipo) = G (Genótipo) + A (Ambiente). O Brasil não deixa a desejar no melhoramento genético, mas o A envolve pelo menos 52 fatores listados, e infelizmente, de um modo geral a silvicultura está sendo tratada com remendos, e não com a devida engenharia.

O único problema é que o tempo em floresta representa anos, e essas surpresas custarão caro no futuro. Por que nas mesmas condições edafoclimáticas a produtividade é tão diferente? Por que existem várias regiões e empresas conseguem em plantios comerciais, IMA (Incremento Média Anual) de 60 m3/ha/ano (metros cúbicos por hectare ao ano), e em casos acima de 80 m3/ha/ano, quando ainda falamos em média nacional de apenas 40 m3/ha/ano?

Na realidade, as respostas são simples, as informações existentes neste artigo são um resumo de alguns tópicos importantes relacionados à silvicultura. Boa parte dos conceitos relatados, são básicos e existem há décadas. Agora, por que eles não são colocados em prática? Essa pergunta pode ter várias justificativas… Última pergunta: Se a terra representa um custo muito elevado no setor de produção, não seria mais vantagem aumentarmos a produtividade, do que plantar mais hectares?

O principal objetivo de uma floresta comercial é fornecer matéria-prima para a fabricação de produtos indispensáveis. Estas florestas estão se multiplicando a partir da necessidade de abastecimento da indústria e preservação das florestas nativas. Portanto, é imprescindível o planejamento completo de todo o cultivo florestal para não se inviabilizar o investimento extremamente rentável.

Se tem alguma dúvida, faça sua pergunta no formulário abaixo, nossos consultores responderão. A InvestAgro dispõe de profissionais qualificados.

Fonte: Painel Florestal