Tecnologia permite a produção, na mesma área, de grãos, carne, leite, fibras e madeira. Fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO), é modelo de integração no Brasil

A pecuária nacional explora 170 milhões de hectares de pastagens. Todavia, as áreas pastoris experimentam rápido e acentuado declínio na capacidade produtiva, em decorrência de processos de degradação que se instalam, limitando a criação. Cerca de 100 milhões de hectares, 60% das pastagens do país, encontram-se com algum grau de degradação. No Centro-Oeste, o cálculo é superior a 45 milhões de hectares, 80%. Adicionalmente, além da ausência de alimento de qualidade para o gado durante o inverno, os índices zootécnicos estão aquém do potencial genético animal disponível.

No tocante à agricultura, dos 55 milhões de hectares ocupados por lavouras temporárias, aproximadamente 67%, ou seja, 37 milhões de hectares são cultivados com soja, milho e alimentos prioritários para a população, como arroz, batata, feijão, mandioca e trigo. Porém, a produtividade média dessas culturas é inferior ao potencial produtivo.

Não por acaso, sugere-se que as áreas de pastagens degradadas sejam recuperadas e usadas tanto para a produção de forragens, cujo destino é a produção bovina, quanto para a produção de alimentos. Entende-se que, além de eliminar os problemas causados pela degradação, o uso da terra deve prover à população alimentos, emprego e qualidade ambiental. Uma alternativa sustentável e rentável é a iLPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta).

iLPF

A crescente demanda mundial por alimentos e energia, e a necessidade de desenvolvimento sustentável das atividades humanas, por meio da preservação do meio ambiente e da utilização racional dos recursos naturais, reforçam os objetivos da iLPF e a colocam como uma poderosa ferramenta à disposição do agronegócio e interesses nacionais, por possibilitar ganhos em competitividade e sustentabilidade do setor produtivo e cooperar para a segurança alimentar e energética do Brasil.

As vantagens em âmbito nacional são comprovadas pela viabilidade técnica, econômica, social e, principalmente, ambiental, da aplicação da iLPF nos biomas – Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica ou Pampas – e pelas possibilidades de combinações entre agricultura, pecuária e floresta, sejam elas integrações agropastoris (lavoura e pecuária), silviagrícolas (floresta e lavoura), silvipastoris (pecuária e floresta), ou agrossilvipastoris (lavoura, pecuária e floresta). Fatores que conferem grande versatilidade ao sistema, possibilitando que componentes culturais, econômicos e ambientais sejam considerados para a sua perfeita adequação à realidade da região.

Sistema Santa Brígida

No Brasil, os primeiros sistemas de iLPF originam-se da necessidade de diversificação da atividade agropecuária nacional no Cerrado nas décadas de 1960 e 1970, lançando mão do cultivo de arroz como forma de preparo do solo para o plantio de pastagens. Hoje, o maior centro de referência nacional em Integração Lavoura-Pecuária-Floresta é a Fazenda Santa Brígida, no município de Ipameri (GO), a 196 km ao sul de Goiânia (GO).
No ano de 2002, a odontóloga goiana Marize Porto Costa ficou viúva e não sabia o que fazer com a propriedade de 920 hectares deixada pelo marido, em Ipameri. Após dois anos, a fim de encontrar uma alternativa inteligente para recuperar as pastagens degradadas, procurou a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Em visita à Fazenda Santa Brígida, o pesquisador João Klutchcouski sugeriu instalar lá uma unidade regional de tecnologia da Embrapa.

Em 2006, deu-se a parceria entre a Fazenda Santa Brígida, a Embrapa Arroz e Feijão e a empresa de máquinas e implementos agrícolas John Deere, inicialmente, com o propósito de validar e transferir tecnologias relacionadas à Integração Lavoura-Pecuária. A Fazenda, apesar de dispor de solos com ótimas propriedades físicas e topografia plana a suave ondulada, apresentava, até 2006, um cenário de pastagens degradadas, tendo, porém, recuperado cerca de 80% até a safra de 2006/2007.

Na propriedade, desenvolveu-se o sistema de consorciação de milho com adubos verdes, no caso as espécies guandu-anão (Cajanus cajan) ou crotalária (Crotalaria spectabilis), denominado Sistema Santa Brígida. De fato, essa modalidade de consorciação não é inédita na área científica. Contudo, segundo João Klutchcouski, a aplicação prática do Sistema Santa Brígida é inovadora. Sua finalidade é inserir os adubos verdes no sistema de produção, de modo a permitir um aumento do aporte de nitrogênio no solo, via fixação biológica do nitrogênio atmosférico. O consórcio não deve afetar a produção de grãos de milho. A cultura subsequente pode beneficiar-se do nitrogênio proveniente das leguminosas, permitindo a redução no fornecimento de nitrogênio mineral. Pode-se citar, ainda, como vantagens desse sistema, a melhoria na qualidade das pastagens, quando no consórcio também se cultiva braquiárias, e a diversificação das palhadas para o Sistema Plantio Direto.

Adicionalmente, o Sistema Santa Brígida representa uma alternativa para o produtor implementar a fixação biológica de nitrogênio no sistema de produção, que consiste em uma das metas do Programa ABC (Programa de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), lançado pelo governo federal, em 2010, por meio do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Esse programa visa financiar a recuperação de pastagens degradadas (15 milhões de hectares); a implantação do Sistema Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (4 milhões de hectares); o Sistema Plantio Direto na palha (8 milhões de hectares); florestas plantadas (3 milhões de hectares); e fixação biológica de nitrogênio (5,5 milhões de hectares), no período de 2010 a 2020.

Modelo de integração

O modelo de integração de tecnologias para produção de grãos, carnes e madeira, desenvolvido na Fazenda Santa Brígida, pode servir de receita para produtores rurais do Brasil inteiro. Um grande entusiasta é o presidente da Cocamar Cooperativa Agroindustrial, Luiz Lourenço, que visitou a propriedade recentemente na companhia de produtores do noroeste do Paraná. “Quem vê esse modelo de integração fica maravilhado, não tem como!”. Segundo o presidente, é certa a adoção imediata do Sistema Santa Brígida em pelo menos duas propriedades agropecuárias paranaenses.

De fato, a produção na Fazenda Santa Brígida impressiona. Segundo Marize, mais de 600 hectares da propriedade já foram recuperados e são mantidos com agricultura e pastagens entremeadas de florestas de eucaliptos – o próximo experimento é expandir a área florestal com espécies do bioma Cerrado. E, na colheita findada em meados de março, a produtividade média foi de 55 sacas de soja por hectare e 150 de milho.

Para o professor da UEG (Universidade Estadual de Goiás) – instituição que aderiu à parceria –, Roberto José de Freitas, “quando se fala de médias originadas de uma propriedade que há cinco anos era dominada por pastagens degradadas, e algumas dessas áreas cultivadas há apenas três anos, as médias são excepcionais”. E tendem a melhorar. Para 2011, a expectativa é alcançar média de 164 sacas por hectare para o milho e 58 para a soja. Em apologia à frase “em terra de cego, quem tem um olho é rei”, Roberto declara que o produtor rural que adere ao modelo de integração irá usufruir de alta produtividade desde que assessorado adequadamente.

O gerente da Santa Brígida, Anádio Ribeiro, conta que por meio da iLPF o Cerrado vai virando um admirável canteiro verdejante. Na pecuária, a propriedade já consegue a média de 2,5 unidades animais (UA) por hectare, lembrando que na região não se vai além de 0,3 a 0,4 UA. O gado Nelore entra em maio, com peso ao redor de 420 quilos, e sai em julho, indo direto para o confinamento. No pasto, engorda um quilo em média por cabeça/dia. Depois, mais 30 a 40 dias de confinamento e sai com 520 a 530 quilos por cabeça.

Já o eucalipto é mais uma opção de renda para os produtores. No sexto ano após plantado, pode ser abatido e garantir uma receita líquida de R$ 1 mil por hectare. Sobre a árvore, o consultor Vanderley José de Oliveira explica que o grande dilema recai na crença de que sua introdução pode gerar o desgaste do solo. Para que isso não aconteça, cabe ao produtor rural avaliar minuciosamente a introdução da silvicultura em sua área produtiva.

Outra colocação esclarecedora de Vanderley é quanto ao espaçamento: “Na minha concepção, não existe um engessamento do espaçamento. Isso porque quando se trabalha com uma topografia plana é uma coisa, já com uma topografia irregular é outra. É preciso estudar o espaçamento, caso contrário, não se conseguirá manter a faixa necessária de incidência de luz sobre a forrageira e a cultura a serem plantadas. É preciso ainda ver qual a finalidade da floresta, biomassa para energia, papel, serraria… um conjunto de ações técnicas para que a iLPF funcione. Não é só chegar e plantar eucalipto. No Sistema Santa Brígida, por exemplo, o espaçamento se dá em função dos equipamentos que a propriedade possui”.

Cabe lembrar que o ganho na introdução do eucalipto recai ainda na produção de carne, afinal, colocar o gado em um local agradável é mais rentável para o pecuarista. Os animais poderão pastar à sombra, protegidos do sol escaldante. Agora, em relação à concessão de recursos, a boa nova vem do Banco do Brasil.

Crédito garantido

O Banco do Brasil anunciou em 31 de maio a abertura de carteira de crédito agrícola exclusiva para os interessados em investir na iLPF. Segundo o vice-presidente de Agronegócios do BB, Osmar Dias, a instituição assim se posicionou por perceber na integração a oportunidade de cumprir as metas do governo federal para investimentos no Programa ABC. “Nós estamos disponibilizando, para começar o programa, R$ 3 bilhões, que, se não forem suficientes, vamos alocar mais recursos”, esclarece. Para o vice-presidente, esta é uma “nova onda” da agricultura, que levará o Brasil não apenas a aumentar a produção de grãos e de carne, mas também “fazer aquilo que foi assinado pela presidente Dilma, que é cuidar da preservação ambiental”, completou.

A linha de crédito que está disponível terá juros de 5,5% ao ano. Os prazos para pagamento, no caso de recuperação de pastagens degradadas, são de oito anos, com três anos de carência. No caso de florestas, o prazo é de 12 anos, e a carência é de seis meses, a partir do primeiro corte, ou seja, se o corte ocorre aos seis anos, a carência será de seis anos e meio; caso a destinação da madeira seja a produção de móveis e outras finalidades que exijam o tempo mínimo de 12 anos para extração, o prazo será também estendido para esse mesmo período.

Instituto iLPF

Para o presidente da John Deere Brasil e vicepresidente de Marketing e Vendas América Latina, Aaron Wetzel, “o Brasil realmente está em uma posição especial. Tem terras disponíveis, recursos naturais e, agora, tecnologia para melhorar significativamente a produtividade agropecuária e suprir a demanda do homem por alimento”. Aaron explica que o principal foco da John Deere em integrar a parceria foi habilitar produtores para lidar melhor com os seus problemas em relação à produtividade, sem abrir novas áreas produtivas no país e preservando o meio ambiente.

Cabe lembrar que esse projeto de cooperação entre entidades e setores interessados no desenvolvimento da iLPF poderá vir a se tornar o Instituto iLPF. Sobre o assunto, o presidente da Embrapa, Pedro Arraes, argumenta a existência de questões ainda não muito bem definidas e que são extremamente relevantes para sua criação. Entre elas, os indicadores de fixação de carbono na introdução do elemento floresta na integração, que ainda não são consensuais em nível mundial. “Existe uma necessidade de pesquisa que será feita por meio desse projeto de cooperação”, afirma. Falando acerca dos participantes desse início de trabalho, em especial das empresas privadas, Pedro Arraes diz que a dedicação de apoio de cada uma a um núcleo específico de implantação dos trabalhos pode ser uma maneira eficaz de atingir resultados. “Assim como a John Deere adotou junto com a UEG a área de treinamento aqui da Santa Brígida, cada um dos parceiros poderia adotar, da mesma forma, um centro de treinamento e divulgação. Se pudéssemos criar uns seis ou sete núcleos como esse pelo Brasil seria muito bom”, diz.

A ideia básica, como explica Pedro Arraes, é unir as empresas públicas ligadas à pesquisa às da iniciativa privada, fazendo com que estas financiem os trabalhos daquelas. O momento agora, segundo ele, é de análise das sugestões da Embrapa, para que os possíveis integrantes do projeto decidam quanto às suas participações, como e onde cada um irá atuar. “Nós apresentamos uma proposta de como fazer esse arranjo. Daqui para frente, vamos implementar o convênio entre as empresas e definir como vai ser escolhido o comitê gestor”, completa.

E, enquanto se aguarda o parecer sobre o assunto, a iLPF vai mostrando, dia após dia, que a ‘solução’ da agricultura está nela mesma: não é preciso inventar, a exemplo da Fazenda Santa Brígida, que de terra de cupins virou modelo de integração no país.

Fonte: Revista Produz