Agricultura

A marcha do agronegócio

Postado em 30/01/2012 | Categoria : Agricultura,Mundo | 0 Comentário

A agricultura brasileira tem se capitalizado e se mantém como uma das mais competitivas do mundo

Embora as últimas estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indiquem que a produção nacional de grãos em 2012 deve ficar em 158,44 milhões de toneladas – 2,8% a menos que na safra 2010/2011 -, não há sinal de problemas no abastecimento interno ou de dificuldades nas exportações do agronegócio. A quebra da produção agrícola na Região Sul por causa da seca será em boa parte compensada pelo aumento da produção dos Estados do Centro-Oeste, onde haverá boas safras, se tudo correr como esperado. O Estado de Mato Grosso reflete bem essa situação, prevendo-se que a safra de soja que começa a ser colhida alcance 22 milhões de toneladas, um novo recorde, em uma área plantada de 65,9 milhões de hectares.

Essas projeções deixam claro, mais uma vez, que a agricultura brasileira – mesmo tendo os riscos típicos da atividade agravados pelas deficiências estruturas em termos de transporte, armazenagem, etc. – tem se capitalizado e se mantém como uma das mais competitivas do mundo.

Com a incorporação de novas zonas produtivas nas últimas décadas, o País deixou de ser dependente de fenômenos climáticos localizados, fator que ajudou a consolidar a sua posição como um dos principais fornecedores de alimentos do mundo. Além disso, as cotações elevadas obtidas pelas commodities agrícolas exportadas têm contribuído para que o setor agrícola se capitalizasse no Centro-Oeste, de modo que já não é totalmente dependente de financiamentos de bancos e de trading companies, o que tende a favorecer novos investimentos.

Embora os juros de financiamentos agrícolas sejam inferiores aos de mercado, representam sempre um ônus e muitos produtores se queixam de não ter acesso a empréstimos de bancos oficiais, devido à burocracia. Uma alternativa ao financiamento bancário é a venda antecipada da produção a tradings internacionais, antes mesmo do plantio do produto. Nesse caso, não há burocracia, mas as comissões cobradas pelas empresas são elevadas, reduzindo consideravelmente a renda dos produtores.

A capitalização que se observa no Centro-Oeste, embora longe do que seria de desejar, significa, na visão de especialistas, o ingresso da região em um novo ciclo. Como se recorda, de meados da década de 1990 até 2005, investiu-se muito em mecanização naquela região, com base em financiamentos concedidos pelo BNDES por meio do programa Moderfrota. Ao mesmo tempo, os produtores ficavam ao sabor da obtenção de empréstimos de custeio.

Esse quadro vem mudando. Segundo dados da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso, a participação de bancos oficiais e de tradings na última safra foi de apenas 18% – contra quase 50% em 2005 – evidenciando o grau de capitalização dos produtores. Como relatou um produtor local ao jornal Valor (25/1), ele adquiriu, nos últimos cinco anos, novas colheitadeiras, dois pulverizadores, quatro motores e quatro plantadeiras para sua propriedade de nove mil hectares. Investiu nisso 60% do seu próprio bolso, financiando apenas 40%. São relatados casos em que a mecanização foi feita inteiramente com recursos próprios.

Com mais dinheiro em caixa, os produtores têm mais condições para arcar com despesas de custeio, como a compra de sementes e compra de fertilizantes e defensivos, pagando à vista, o que reduz de 15% a 20% o custo de produção.

Nota-se que, com o aumento das restrições ambientais, com mais controles visando à preservação das matas nativas, e o consequente aumento do preço das terras já cultivadas, os produtores são levados a buscar mais produtividade, o que exige o uso de maior volume de adubos e defensivos. Embora as cotações das commodities agrícolas, de modo geral, não tenham retornado ao pico de 2008, ainda são atraentes. Como os preços do milho e da carne bovina estão em alta, a safrinha do milho ou milho de sequeiro, cultivado de janeiro a abril, promete ser também elevada no Centro-Oeste. Muitos produtores têm optado também por aumentar o rebanho de gado. Outras alternativas são as culturas de algodão e feijão combinadas com a da soja. Com essa diversificação, os produtores procuram defender-se da oscilação dos preços internacionais.

Fonte: O Estado de S. Paulo