Trata-se de uma linha de financiamento de custeio de operações de colheita florestal

Carlos Mendes é diretor executivo da Apre
Carlos Mendes é diretor executivo da Apre

Um dos grandes problemas enfrentados pelo setor florestal hoje, principalmente para os pequenos e médios produtores, é a escassez de recursos para realizar o desbaste. Essa ação tem grande importância para o segmento, porque retira as árvores dominadas, tortas e que estejam competindo por luz do solo, garantindo toras com mais qualidade e maiores dimensões em diâmetro.

Para trabalhar a questão junto ao governo, a Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (Apre) solicitou à Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab-PR) a inclusão do financiamento de custeio das operações de colheita florestal, na modalidade de primeiro desbaste, para os pequenos e médios produtores florestais nos programas de financiamentos do Plano Safra de 2015. Essa medida vai incentivar a execução do desbaste e proporcionar a produção de toras para abastecer os setores de serrarias e laminação em médio e longo prazo.

“As grandes fornecedoras de toras atuais já informaram que seus estoques estão acabando e que haverá uma forte diminuição na oferta de toras para o mercado. Nesse cenário, vemos uma grande oportunidade para os pequenos e médios investidores. Eles poderiam manejar suas florestas, ocupar esse espaço e dar continuidade à produção para suprir a demanda. A diminuição de oferta dos grandes fornecedores traria excelentes possibilidades de ganho aos produtores”, explica o diretor executivo da Apre, Carlos Mendes.

O diretor reforça o pedido de um programa de financiamento para pequenos e médios produtores alertando para o perigo de desabastecimento das serrarias no futuro. Segundo ele, o setor não terá uma quantidade de toras suficiente para abastecer o mercado. “Hoje já existe certa dificuldade, porque as grandes abastecedoras do mercado mudaram o manejo. O mercado atual apresenta uma oferta maior que a demanda, ainda aguardando o início dos novos projetos de grandes consumos, o que gera preços baixos para a madeira fina em geral. Assim, com o preço baixo, o somatório dos custos de colheita e transporte da madeira não resulta no retorno esperado pelo produtor, o que inviabiliza a execução do desbaste. Tudo isso desestimula o produtor de fazê-lo. Sem desbastes, temos pouca oferta de toras grossas. Sem toras de grande diâmetro, obviamente a indústria de madeira sólida – serrarias e laminadoras -entrará em colapso. Se continuar assim, daqui a 10 anos teremos um sério problema no abastecimento”, revela o diretor.

Para melhorar a situação, a Apre, no ofício enviado ao secretário da Seab, Norberto Anacleto Ortigara, sugere uma linha de financiamento para custeio da colheita no valor de até R$ 25 mil reais para o pequeno ou médio produtor florestal. “Esse valor poderia cobrir metade dos custos de extração numa área de até 20 hectares, viabilizado o manejo e proporcionando uma pequena capitalização do investidor. O empréstimo seria pago no desbaste seguinte ou no corte raso, que deve ocorrer dentro de quatro ou cinco anos, dependendo da espécie e do manejo. Certamente essa medida traria um grande estímulo a todos os produtores florestais do Paraná, alavancando o futuro da indústria da madeira mecanicamente processada”, garante Mendes.

Incentivo

Na opinião dos pequenos e médios produtores do Paraná, um financiamento como este proposto pela Apre iria ajudar a profissionalizar o setor. Na região de Umuarama, por exemplo, a falta de recursos faz com que os produtores acabem vendendo suas produções por um preço abaixo do que é praticado pelo mercado. Claudio Marconi, engenheiro agrônomo e integrante da Associação Florestal Aliança (AFA), comenta que os produtores plantam madeira para 15 e cinco anos. Segundo dados apresentados pelo engenheiro, em um hectare de madeira para lenha, com quatro ou cinco anos, se o produtor não tem recurso, acaba fazendo corte raso. Dessa forma, ele consegue cerca de R$ 20 mil por hectare bruto. Se esperasse a madeira para 15 anos, alcançaria aproximadamente R$ 150 mil na mesma área.

“Porém, para os pequenos e médios produtores, é um período grande para manter os recursos e fazer o manejo dessa lavoura. Com o desbaste no quarto ou quinto ano, os pequenos produtores acabam ficando na mão dos lenheiros, que são aqueles que compram madeira, bancam o raleio e injetam um pouco de dinheiro no produtor. Esse é o grande problema na nossa região: os pequenos ou médios produtos precisam do lenheiro para ter recursos para realizar o desbaste. Se houvesse um financiamento para fazer o desbaste, certamente ele conseguiria vender melhor a madeira e agregar valor ao que está produzindo”, revela Marconi.

Na opinião de Luis Carlos Valtrin, da Cooperativa Florestal, de Guarapuava e região, todo incentivo para produção no setor florestal é bem vindo. “Uma linha de financiamento como essa incentivaria esses produtores a tomar a decisão de fazer o desbaste. Precisamos disso para melhorar a floresta como um todo, pensando nas árvores que ficarão e irão agregar valor ao produto. Isso vai trazer mais dinheiro para o produtor. Hoje, até temos linhas de crédito, mas a burocracia é tão grande que o banco acaba ficando coma verba que poderia ser usada na produção florestal”, reforça.

Para Marcos Speltz, presidente da Cooperativa dos Campos Gerais (Copergera), região do médio Rio Tibagi, a iniciativa é interessante, pois os produtores precisam começar de alguma forma. Nesse caso, financiar a desrama, o plantio ou a pesquisa seria uma boa opção. “O grande desafio é que o produtor pague sua operação e remunere o investimento. É difícil pensar em diminuir custos sem modernizar a administração e as operações. Um financiamento com juros menores que o mercado pratica sempre é importante para desenvolver alguma atividade. Com certeza precisamos de financiamento, porque nossa atividade é de longo prazo. Além disso, o preço praticado no momento precisa melhorar. Caso contrário, não vai encorajar o uso de financiamento”, completa.

Fonte: Painel Florestal