O mundo começa a entrar em uma nova fase da crise mundial

O mundo começa a entrar em uma nova fase da crise mundial. Se, de uma lado, os riscos de uma ruptura do sistema financeiro foram minimizados pelas últimas medidas dos bancos centrais e das autoridades europeias, ao mesmo tempo, a perspectiva é de um longo período de “crescimento medíocre” nas principais economias do mundo, sejam elas desenvolvidas ou emergentes.

Esse cenário pessimista em termos de crescimento mundial, traçado ontem pelo diretor da área internacional e de regulação do Banco Central, Luiz Awazu Pereira da Silva, em discurso em São Paulo, exige que a autoridade monetária seja “capaz de calibrar o ponto mais favorável onde se maximizam as chance de crescimento” da economia brasileira, sem comprometer a estabilidade monetária e financeira.

“Apesar de uma redução dos riscos de cauda [evento de ruptura], aumentam ligeiramente – pela persistência do baixo crescimento – os riscos para o ritmo que terá a atividade nos seus polos mais dinâmicos. Dado o impulso acumulado já amplo e efetivo ao nosso crescimento, é importante ser capaz de calibrar o ponto mais favorável onde se maximizam as chances do nosso crescimento continuar a acelerar, minimizando os riscos para a nossa estabilidade monetária e financeira.”

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC divulgou um comunicado que dividiu o mercado. Ao citar que só faria movimentos adicionais de corte de juros com a “máxima parcimônia”, muitos analistas entenderam que o ciclo de queda da taxa de juros, que recuou 5 pontos percentuais desde agosto do ano passado, para 7,5% ao ano, estaria encerrado.

Mas parte dos operadores ainda acredita em novo corte de pelo menos 0,25 ponto percentual na reunião do Copom da próxima semana, visão que pode ganhar força após o discurso de ontem.

O diretor do BC incluiu uma nova palavra-chave que deve chamar a atenção do mercado, ao afirmar que o BC terá que “calibrar” as decisões de política monetária para equilibrar o baixo crescimento mundial com o risco de inflação e estabilidade financeira no Brasil.

Awazu fez questão ainda de reafirmar que o atual choque de commodities mundial que afeta também os preços no Brasil “deve ter efeitos mais amenos e temporários”, quando comparado ao ciclo de 2010/2011. “É provável que estejamos frente a um período de baixo crescimento global mais persistente e mais longo, e com possíveis efeitos negativos sobre os polos mais dinâmicos da recuperação global”.

“O que está talvez surgindo como uma nova questão mais recentemente é o efeito da persistência desse quadro de crescimento medíocre por um período mais prolongado do que originalmente se antecipava, como uma espécie de extensão do Japão pós-bolha”, completou em palestra em evento na BM&FBovespa;, na tarde de ontem, em São Paulo, com a presença do comissário para serviços financeiros da União Europeia, Michel Barnier.

O diretor do BC fez questão ainda de reforçar algumas vezes durante seu discurso que o país mantém o compromisso com o tripé de política econômica adotado há mais de de anos. Segundo ele, a “manutenção do tripé responsabilidade fiscal, câmbio flutuante e regime de metas para a inflação tem sido capaz de guiar e consolidar a confiança dos agentes, mesmo nas situações excepcionais do mundo de hoje”, afirmou.

As palavras de Awazu parecem direcionadas às críticas que o BC recebe atualmente por sua atuação. Segundo economistas de mercado ouvidos recentemente pelo Valor, a autoridade monetária estaria se mostrando mais preocupada com o crescimento do que com a inflação.

“Ao longo das últimas décadas, desenvolvemos um arcabouço robusto para garantir simultaneamente a nossa estabilidade macroeconômica, inflação na meta, e a nossa estabilidade financeira”, diz Awazu.

Mas ele também destacou a recuperação do crescimento econômico, como tem sido cada vez mais frequente nos últimos discursos do BC, tendo como pano de fundo as atuais medidas do governo federal para ampliar a oferta da economia brasileira.

“O Brasil está bem posicionado, com uma estabilidade macro e financeira consolidada, empenhado em reforçar suas políticas de oferta, de melhora de sua logística, infraestrutura e capital humano para apoiar a sua retomada do crescimento em curso.”

Se a busca pela inflação na meta continua sendo prioridade, o regime de câmbio flutuante também se mantém em plena execução, diz o diretor do BC. Segundo ele, essa não é uma questão de gosto pessoal, mas sim de se valer de um instrumento que se mostrou efetivo para amortecer choques externos.

“A sociedade brasileira se beneficiou do regime de câmbio flutuante. É a primeira linha de defesa para choques externos. Não é uma questão de desejo pessoal. É um instrumento importante para dar robustez ao nosso tripé [de política econômica]”, disse, em resposta a uma pergunta sobre o fato de o governo sistematicamente defender um piso ao redor de R$ 2 para o dólar nas últimas semanas.

Awazu reconheceu que o ambiente internacional hoje é mais “complexo” e, por isso, exige um “gerenciamento” também mais complexo da economia. Mas ele enfatizou que é preciso reconhecer que esse “gerenciamento tem sido bem-sucedido”.

“Ao mesmo tempo que o regime de câmbio flutuante tem a capacidade de eliminar volatilidades excessivas, a necessidade de se preservar o câmbio como amortecedor de choques externos tem sido muito útil ao país.”

A robustez e solidez do sistema financeiro brasileiro foi outro fator determinante para o enfrentamento da crise, disse Awazu. “Nosso sistema financeiro é sólido, com elevados níveis de capital, de cobertura da inadimplência por provisões e de liquidez das carteiras”, diz. Além disso, ele ressaltou que o sistema é resistente a choques, como mostraram os testes de estresse apresentados esta semana no Relatório de Estabilidade Financeira, e a exposição a riscos externos é pequena.

O diretor reafirmou ainda que o arcabouço brasileiro mantém sob uma mesma autoridade o papel de supervisor e de regulador do sistema. “Esse sistema coordenado foi abandonado, mas agora está sendo adotado de novo nos países avançados por ser mais eficiente.”

Por fim, Awazu apontou que o sistema brasileiro ainda tem espaço para mais aprofundamentos. “Nosso sistema tem crescido em tamanho, sofisticação e diversificação, acompanhando o progresso econômico e social do país. Destaca-se ainda o saudável processo de inclusão financeira observado na última década, o que permitiu a expansão do crédito que, não obstante, quando comparado a outras economias, ainda apresenta um baixo patamar em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Tudo isso indica haver espaço para continuar se expandindo de forma sustentável nos próximos anos”, concluiu o diretor do BC.

Fonte: Valor Online