Para professor da UEM, Ricardo Dias, país ainda não enxergou o papel estratégico dessa matéria-prima

O Brasil é um país com vocação florestal, possui grandes áreas plantadas e uma das maiores reservas nativas do planeta. Mas mesmo com esse destaque no cenário mundial, o consumo per capita de madeira ainda é muito baixo comparado a outros países. De acordo com o arquiteto Ricardo Dias, professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), países europeus como Estônia, Letônia, Finlândia e Áustria, o consumo per capita é de 1,27 metros cúbicos por habitante por ano. No Brasil, o número é baixíssimo: 0,108. Ele apresentou os dados durante o 4º Simpósio Madeira & Construção, que aconteceu em Curitiba (PR), nos dias 20 e 21 de setembro.

“Ainda existe muito preconceito, o que dificulta a ampliação do uso dessa matéria-prima no nosso país. O desejo de nós, arquitetos, bem como dos engenheiros e profissionais da área, é conseguir expandir o uso. Não que a madeira seja a única opção, mas ela é mais uma alternativa para ampliar as possibilidades da construção. E ela tem um grande benefício ambiental, que é a fixação de CO2. Hoje discutimos muito pouco isso. Não estamos tirando proveito da madeira com relação ao fato de ela ser ambientalmente correta. A madeira pode ter papel mais relevante como tem em outros países. É uma ótima alternativa para construções provisórias, construções rápidas, para resolver problemas urgentes com relação à habitação. Nós ainda não enxergamos o papel estratégico dessa matéria prima”, declarou.

Para o arquiteto, o Brasil ainda tem um longo caminho para poder levar habitação de qualidade para sua população. Ao mesmo tempo, uma série de preocupações ambientais também interfere no uso da madeira em todo o planeta, pois discute-se muito o esgotamento dos recursos naturais, que é um desafio que deve ser enfrentado. Com base nesses obstáculos, Dias afirmou que o setor florestal brasileiro precisa se organizar melhor, até para saber se tem capacidade produtiva para oferecer madeira de qualidade à construção civil. Além disso, ele ressalta que é preciso avaliar também se o segmento tem capacidade de transformação da madeira em componentes construtivos, ou seja, se o setor tem condição de retirar essa madeira e dar uso a ela. E o terceiro questionamento que deve ser feito é se existem políticas públicas para o desenvolvimento da cadeia produtiva e para incentivar o uso da madeira na construção.

“Se ampliarmos o cultivo de pinus e fizermos o manejo adequado, teríamos disponibilidade de madeira. Além disso, se houver investimento no parque tecnológico e capacitação de mão de obra, também. Por fim, se a administração pública envolver a ampliação da base florestal, conseguiríamos diminuir o déficit habitacional, gerar trabalho e renda, aproveitar os benefícios ambientais da madeira e transformá-la em um produto de maior valor agregado”, avaliou.

De acordo com o arquiteto, infelizmente hoje os maiores produtores de madeira do país ainda não estão vinculados ao mercado da construção civil. Ele citou que a maior empresa de serrados do país, por exemplo, é uma empresa de papel e celulose, que direciona a matéria-prima para esse uso, utiliza o mercado da construção civil, mas não garante o fornecimento. Ou seja, isso quer dizer que a construção civil fica refém de outras cadeias produtivas. “Esse mercado ainda não acordou para o fato de que é um grande consumidor de madeira”, disse.

Segundo Dias, as principais dificuldades são o custo da matéria-prima, os altos impostos, a falta de matéria-prima de qualidade, o preconceito ao uso do material e os problemas relativos à legislação ambiental. Além disso, a cadeia tem dificuldades para se desenvolver por conta da falta de políticas públicas, a falta de conhecimento das pessoas com relação ao material, a falta de escolas que capacitem a mão de obra, entre outros motivos.

“Se não tivermos um bom produto, não vamos conseguir quebrar o preconceito das pessoas. Antes não tínhamos profissional, arquiteto ou engenheiro, para especificar o produto. Empresas de fundo de quintal acabavam fazendo o trabalho, o que deixava uma imagem ruim do material e acabava aumentando o preconceito. Por isso temos que trabalhar para que as empresas consigam colocar um bom produto no mercado, porque uma vez que existe um produto de qualidade, mudamos a referência, muda o sistema”, garantiu.

Por fim, o arquiteto reforçou que a indústria da madeira deveria fazer um trabalho de planejamento para melhorar a cadeia produtiva e, com isso, ter matéria-prima de qualidade para que os profissionais possam especificar a madeira. Ele sugeriu que o setor use a indústria do aço como espelho, já que, o steel frame se tornou mais popular no mercado “do dia para a noite”.

“A cadeia produtiva florestal e da indústria da madeira ainda não se aproximaram muito da construção civil, e a construção civil ainda não se atentou para esse problema. Precisamos aproximar quem ensina a utilizar o material, quem produz o material e quem fiscaliza. O setor produtivo tem também que sensibilizar o Estado para implantar políticas públicas neste sentido, já que o governo tem um papel importantíssimo, pois observamos há muito tempo países que já adotaram leis de incentivo da madeira na construção pensando nos benefícios ambientais e nos tratados internacionais e isso ainda não acontece no Brasil. Precisamos exigir maior presença, colocar mais o produto no mercado para torná-lo mais competitivo. Precisamos afinar nossas ações para chegar num bom resultado”, completou.

Fonte: Por Maureen Bertol para o Portal Madeira e Construção