A agricultura e a pecuária brasileiras produzem a preços e custos menores tudo o que a indústria e os outros setores da economia precisam

campo-industriaA agricultura e a pecuária brasileiras produzem a preços e custos menores tudo o que a indústria e os outros setores da economia precisam. Se estendermos para o conceito de commodities, incluindo o minério usado nas siderúrgicas que produzem aço, a cobertura é praticamente total. Que a agricultura brasileira salvou a economia no ano passado e está salvando este também, não é novidade. Demos na última coluna, com detalhes.

Demos também, não é este fato único, que os agricultores investiram no ano passado e estão reinvestindo este ano, R$ 200 bilhões, nada menos que 22% do PIB total do agronegócios, que foi de R$ 940 bilhões. Pode ser mais porque aumentaram a área plantada e compraram equipamentos. São recursos que eles geraram e trouxeram de volta para o campo.

Graças ao aumento do plantio e, principalmente, agora, ao clima favorável, a atual safra agrícola deve crescer 8,6%, de acordo com previsão da Conab, tendo como base o que já está sendo cultivado e a intenção dos agricultores de plantio. Boa parte da safra já está sendo colhida.

O que não é novidade, mas poucos sabem ou os que sabem, não comentam, é que o setor agrícola brasileiro atende plenamente à demanda industrial por matéria-prima a custo menor e melhor qualidade. Milho, soja, algodão, café, cana, couro. Tudo. Não falta praticamente nada. Isso deveria desonerar a produção industrial que tem seus custos elevados por outros fatores distorcivos, sim, mas sobre os quais poderia, na medida do possível, agir.

Números impressionam. Esse é um ângulo com o qual encerramos o tema iniciado na coluna anterior, agricultura investe R$ 200 bilhões. Para que os leitores tenham a visão de uma realidade escondida no campo, para que não venham a público choramingar e pedir favores, dizendo que “os chineses chegaram, os chineses chegaram… Vamos brigar com eles? Não, vamos comprar deles, montar e vender aqui…” E sem riscos. Eles perdem porque não produzem, mas compensam com o que ganham, com o que vedem no mercado interno.

30 milhões para 194 milhões. São 30 milhões de agricultores no campo que abastecem uma população de quase 194 milhões – e outros milhões que estão entrando no mercado de consumo graças ao aumento da renda. A agricultura atende a tudo que a indústria precisa para produzir, gerou uma renda de R$ 917 bilhões e ainda exportou no ano passado US$ 95,8 bilhões e permitiu a formação de estoques reguladores suficientes para qualquer emergência e sustentação dos preços mínimos.

O que temos aí, em meio a um clima turbulento, incerto, dominado em Brasília por indefinições quase existenciais, não é só uma agricultura alimentando o País, mas oferecendo a muitos setores de atividade, tudo o que precisam. Só que ela cresce porque investe e os outros recuam porque… Ora sabe-se lá porquê! Hesitam?

O que a indústria mais usa. Soja, milho, tudo. A safra brasileira de soja da temporada que está começando a ser colhida deve alcançar um recorde de 84 milhões de toneladas, com o clima favorável ajudando na produtividade das lavouras. E o Brasil vai ocupando rapidamente espaço e liderando cada vez mais setores no mercado mundial, sem limites hoje previsíveis porque há milhares de hectares ainda por ser plantados, espírito empreendedor e apoio não apenas financeiro do governo, do Ministério da Agricultura.

Se tudo isso não é novidade, se a coluna já deu – os 22% de investimento do PIB agrícola impressionaram muito os leitores ( e nós também…) -, o que há de novo? Há um fato que muitos ignoram e os que sabem, não comentam: é que agricultura e a pecuária brasileiras produzem tudo que a indústria precisa a custos menores e melhor qualidade. Tudo. Pouquíssimos países, talvez os Estados Unidos, têm condições tão favoráveis.

O algodão autossuficiente. Levantamento do Ministério da Agricultura, nesta semana, dá um destaque especial ao algodão. Ele mostra que “a indústria têxtil brasileira usa por ano, quase um milhão de toneladas da fibra produzida no País”. Considerando a safra de 1,8 milhão de toneladas na temporada 2011/12, o excedente é exportado para o mercado internacional colocando o Brasil em terceiro lugar entre os maiores exportadores mundiais. Isso é o Brasil. É autossuficiente na produção de algodão que abastece completamente a importante indústria têxtil nacional.

Carnes, açúcar, milho. Outro setor industrial que tem dependência direta e é atendido pela agropecuária brasileira é o da indústria de carnes com o milho. Em 2012, cerca de 70% das 53 milhões de toneladas do grão consumidas no Brasil foram destinadas à ração animal. Poderíamos alongar a lista de produtos agrícolas que são industrializados: açúcar, cana-de-açúcar, agora com o uso do bagaço para geração de energia, álcool…

Máquinas e caminhões. Além do fornecimento de matéria-prima, o setor agropecuário também influencia a indústria com a aquisição de máquinas, equipamentos agrícolas, caminhões, num processo de modernização que ano a ano se acentua, refletindo no aumento da produtividade.

Menos juros, mais vendas. No ano passado, com os juros caindo de 5,5% para 2,5%, as vendas de máquinas agrícolas aumentaram 6,2% em relação a 2011. Ao todo, foram vendidas  70 mil unidades, número que não era alcançando desde a década de 70, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A expectativa para 2013 é de novas altas, entre 4% e 5%.

É a mecanização que avança trazendo o aumento da produção agrícola em mais 8,6% e o índice crescente de produtividade. São informações que, pelos inúmeros e-mails que recebeu, a coluna acredita não tinham chegado ainda aos leitores. Em um desses e-mails, um leitor pergunta se não estou sendo otimista demais, “quase ufanista”, diz ele. Mas os fatos, os números, as exportações, as safras crescentes abastecendo o mercado não justificam isso?

Ufanista, não. Longe disso porque o agricultor brasileiro enfrenta ainda sérios desafios, incluindo logísticos. Apenas reconheço e realço uma realidade que está aí, inteira, quase exuberante (perdão…), que precisa ser conhecida. Uma realidade que repasso para vocês.

Fonte: O Estado de S. Paulo