Pesquisa avalia viabilidade de cultivo em regiões tropicais como uma segunda safra na rotação com milho e soja, uma oportunidade para aumentar a produção de óleos e energia

A canola é uma cultura típica de clima temperado, cultivada na América do Norte, Europa, Ásia e Austrália. No Brasil, o cultivo está concentrado na Região Sul, onde as temperaturas amenas favorecem o desenvolvimento das plantas. Agora a pesquisa está avaliando a viabilidade cultivo da canola em regiões tropicais do país, como uma segunda safra na rotação com milho e soja, uma oportunidade para aumentar a produção de óleos e energia, otimizando área e equipamentos.

Os primeiros experimentos da pesquisa com o cultivo da canola em regiões tropicais foram implantados no início dos anos 2000, nos estados de GO, MT e PB, contrapondo os conhecimentos da cultura até então estabelecidos para indicar o plantio limitado às regiões de clima temperado e latitude entre 35 e 55 graus. A latitude está relacionada à distância da Linha do Equador (que cruza o Norte do Brasil), assim, quanto mais próximo ao Equador, maior a temperatura e maior a incidência de luz solar. A luminosidade é benéfica para a canola, mas as altas temperaturas não. Por isso, os experimentos com canola em baixas latitudes (entre 6 e 13 graus) têm priorizado regiões mais altas (acima 600m) e com regime de chuvas suficientes para garantir umidade no desenvolvimento da cultura.

Pesquisador Alberto Luiz Marsaro Júnior avalia danos por lagarta na canola
Pesquisador Alberto Luiz Marsaro Júnior avalia danos por lagarta na canola

No Mato Grosso, diversas iniciativas têm sido desenvolvidas na identificação de híbridos de canola com maior adaptação ao ambiente tropical através de parcerias envolvendo Embrapa Trigo, indústria de óleos, assistência técnica privada, instituições de ensino e produtores particulares. Os rendimentos têm variado de 1.280 e 2.500 quilos por hectare (kg/ha). As dificuldades enfrentadas estão, principalmente, no manejo que depende do ajuste fitotécnico da cultura na região. Para garantir o avanço da tropicalização da canola, um grupo de pesquisadores esteve na região prospectando demandas para detalhamento das inovações necessárias à viabilização do cultivo. Foram visitados experimentos na Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT – campus Tangará da Serra) e no município de Campo Novo do Parecis, localizados na região centro-oeste do Estado.

Demandas para a pesquisa
Na avaliação da equipe de pesquisa da Embrapa Trigo, as principais dificuldades no cultivo estão relacionadas ao manejo da cultura, com o controle eficiente de pragas e doenças.

Para definir a época de semeadura, foram instalados experimentos de canola pela UNEMAT em três épocas: 11/02, 21/02 e 04/03. “Dentro da questão econômica, para potencializar o rendimento, é importante a inserção da canola na primeira quinzena de fevereiro, aproveitando o regime de chuvas, que vai de outubro a março, e reduzindo o risco de estresse hídrico durante o fim da floração e enchimento de grãos”, avalia o pesquisador Gilberto Omar Tomm. Contudo, ele admite que a prática utilizada na região tem sido implantar a canola a partir do mês de março devido ao melhor retorno financeiro com o plantio do milho e girassol em safrinha. Agora, devem conduzidos experimentos com épocas de semeadura de 15 de janeiro a 15 de abril, combinados com híbridos precoces e de ciclo médio, repetidos durante três anos, em diferentes espaçamentos para definir o melhor calendário.

Na identificação de pragas, o pesquisador Alberto Luiz Marsaro Júnior observou que desfolhadoras como as lagartas são o maior problema, além da ocorrência de mosca branca e diabrótica. “Vamos colaborar com a UNEMAT no trabalho com professores e estudantes para um levantamento sistemático, ao longo de todo o ciclo da cultura, dos principais insetos-praga, seus inimigos naturais e polinizadores. A correta identificação das espécies vai permitir o uso de inseticidas mais específicos, seletivos e eficientes no controle das pragas”, explica o pesquisador.

Com relação a plantas daninhas, o pesquisador Leandro Vargas informou que os problemas identificados são semelhantes aos encontrados na Região Sul, com grande incidência de invasoras de folhas largas.

Para o pesquisador Fabiano Daniel De Bona, existem poucas limitações para expansão da canola na região: “Vimos importantes culturas em pleno desenvolvimento na região, como soja, milho, girassol. Isto mostra que a acidez, comum em solos do Cerrado, está controlada e não vai causar problemas. Precisamos apenas definir a adubação adequada para corrigir a deficiência de nutrientes e estimular a prática de análise de solos entre os produtores”.

Oportunidades da canola no Centro-Oeste
· Por ser uma crucífera, da família da couve e do repolho, a canola reduz a ocorrência de pragas e doenças nas gramíneas (trigo, milho) e nas leguminosas (soja, feijão);

· Os híbridos de canola também apresentam maior tolerância à seca e à geada do que o milho;

· A canola é uma alternativa na produção de óleo que pode ser cultivada após a soja, reduzindo a ociosidade do parque industrial de extração, ofertando matéria-prima numa período de sazonalidade da soja.

Perspectivas
Num esforço da pesquisa e parceiros, em 2014 deverão ser avaliados mais de 30 genótipos de canola na região, permitindo a identificação de materiais com maior potencial de cultivo com base em avaliações de ciclo, desenvolvimento de plantas e produtividade. O ajuste tecnológico da canola tropical também deverá ser aprimorado no próximo ano.

De acordo com o analista Paulo Ernani Ferreira, o trabalho no Centro-Oeste vai contar com o suporte do projeto “Canola para o Brasil – Pesquisa, transferência de tecnologia e desenvolvimento organizacional para expansão da canola no Brasil”, onde uma equipe multidisciplinar, de diversas instituições, passará a desenvolver atividades voltadas a elevação do rendimento e da qualidade da cultura, incluindo a expansão do cultivo para as regiões tropicais do país.

A expansão da canola no Mato Grosso conta o trabalho da Embrapa Trigo, Celena Alimentos, UNEMAT, Parecis Alimentos, Agrodinâmica, Grupo Agropecuário Água Azul, Agrícola Ferrari e Poder Público de Campo Novo do Parecis.

Fonte: Portal Dia de Campo