A economia brasileira começa a enfrentar nova parada dura que tem tudo para ser novo choque de alimentos. A estocada no custo de vida de julho, medido pelo IPCA, foi maior do que a esperada. Foi um avanço de 0,43%, bem acima do 0,08% apontado no mês anterior

A economia brasileira começa a enfrentar nova parada dura que tem tudo para ser novo choque de alimentos. A estocada no custo de vida de julho, medido pelo IPCA, foi maior do que a esperada. Foi um avanço de 0,43%, bem acima do 0,08% apontado no mês anterior.

Mas o número mais expressivo não aparece no IPCA, mas nos resultados da primeira prévia do IGP-M. Os preços agrícolas no atacado saltaram nada menos que 4,39% sobre a situação do mês anterior.

Essa escapada reflete a forte alta das commodities agrícolas em consequência da maior estiagem desde 1956 que ataca a mais importante área produtora de grãos do maior produtor mundial, os Estados Unidos. Em somente dois meses e oito dias (até ontem), as cotações do milho avançaram 57%; as do trigo, 36%; e as da soja, 25%.

O avanço do custo de vida mostra o primeiro movimento de transferência desse salto de preços do mercado atacadista para o varejo. Em julho, os preços do grupo Alimentação e Bebidas subiu 0,91% e contribuíram, com 0,21 ponto porcentual, no 0,43% de crescimento da inflação do mês. Agora parece inevitável que se acentue a transferência da alta dos alimentos para o custo de vida.

Além do impacto do choque dos alimentos e do encarecimento dos importados como desdobramento da desvalorização cambial (alta do dólar), o bolso do consumidor deverá enfrentar novo foco de pressões altistas na área dos combustíveis. Os resultados negativos da Petrobrás no segundo trimestre foram suficientemente impressionantes para mostrar que a política de distribuição de subsídios ao consumo de combustíveis é incompatível com os programas de investimento da Petrobrás e com a necessidade de garantir o suprimento de etanol. Ainda ontem, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, reconheceu que os reajustes dos combustíveis ficaram inevitáveis, embora admita que não haja ainda decisão sobre a matéria dentro do governo.

Esses fatores indicam que a conjuntura de crise, fortemente deflacionista até recentemente, deixou de contribuir, como vinha esperando o Banco Central, para a queda da inflação interna. Como a quebra de safras nos Estados Unidos dificilmente será compensada por aumentos de produção de grãos em outros países, não há condições técnicas de que essa alta de preços seja revertida tão cedo.

A questão seguinte consiste em saber até que ponto as novas pressões inflacionárias permitirão que o Banco Central continue dando seguimento à sua política de afrouxamento monetário (queda dos juros). Parece bem mais difícil agora garantir, neste ano, a convergência da inflação para a meta, com o que contava o Banco Central.

Isso não significa necessariamente mudança de rumo na atual política de juros. O governo Dilma parece determinado a continuar a baixá-los. Uma das precondições técnicas para isso seria reforçar o superávit orçamentário para reduzir ainda mais seu impacto sobre os preços. Mas a desaceleração da atividade econômica também está contendo a arrecadação e deixa o governo federal sem muita margem para agir.