Na safra atual, o governo destinou cerca de R$ 2,6 bilhões para a pecuária e um dos destinos é recuperar pastagem degradada que chega a 70% das áreas atuais – São Paulo

A divisão do pasto em piquetes – áreas que permitem o rodízio do gado – e a fertilização do solo para recuperação de pastagem elevaram em um terço a produtividade da Fazenda YKK, em Minas Gerais. Em oito anos de tratamento, a propriedade de onze mil hectares passou a comportar 4,5 mil cabeças de boi – quase o dobro do que havia antes das ações de manejo da pastagem.

O caso é exemplar em um país que ostenta a maior área de pasto do mundo, com um rebanho de 200 milhões de cabeças, mas cuja degradação dos pastos chega a 70% da área. “A pecuária no Brasil sempre foi uma fonte de abertura de novas fronteiras, com a agricultura vindo atrás”, contextualiza o consultor Wagner Pires, da DTA Consultores. O dano é tamanho que o Plano de Safra atual reserva empréstimos para pecuaristas interessados em recuperar suas terras. Trata-se do Financiamento do Centro-Oeste (FCO), cujo empenho estava previsto em R$ 2,6 bilhões para este ano – o Ministério da Agricultura não confirmou o valor -, dando direito a até R$ 1 milhão por criador de bovino, com prazo de oito a 12 anos para quitação.

Em 2011, quando foi criado e incluído na linha de crédito da Agricultura de Baixo Carbono (ABC), o FCO oferecia R$ 2,1 bilhões para o a Região Centro-Oeste, que registrava 30 milhões de hectares degradados. Somente o Mato Grosso, naquele ano, precisaria de R$ 11,7 bilhões para recuperar a degradação que há em nove milhões de hectares (34% da área de pastagem) do estado. “O manejo do pasto] é um trabalho que tem de ser feito, pois hoje não dá mais para ter novas áreas. O negócio é ganhar produtividade – mais UAs [Unidades Animais] em áreas menores – e manter outras culturas”, afirma o diretor da divisão de agropecuária da YKK, Maurício Kikuta.

A sigla é uma multinacional japonesa especializada na fabricação de acessórios de confecção, mas que também atua no campo com uma fazenda homônima no noroeste de Minas Gerais. “Antes de efetuar as mudanças, tínhamos 0,8 UA [Unidade Animal] por hectare. Depois, passamos para 1,2 UA”, afirma Kikuta.Uma UA equivale a 450 quilos de boi vivo no pasto. Para fazer aumentar em mais de 30% seu contingente animal, a YKK investiu na criação de piquetes de 50 a 100 hectares, pelos quais o gado faz rodízios em períodos que variam de dois dias a uma semana. Além disso, instaurou uma rotação de culturas na propriedade, isto é, arrendou partes da fazenda para o plantio de soja e milho.”Recuperamos as áreas de pasto por via dos GRÃOS“, diz Kikuta. Os arrendamentos têm duração de cinco anos e rendem aos proprietários da terra, em acréscimo à revitalização do solo, sete sacas (das cerca de cinquenta que são produzidas) por hectare. “É um contrato razoável”, afirma Kikuta.

 

Consultoria

O preço de se recuperar ou reformar uma fazenda de bovinos varia de R$ 400 a R$ 1.200, de acordo com o especialista em manejo adequado de pastagens, Wagner Pires. “Isso tem custo e muitas vezes é um processo longo e demorado. O que é preciso: investir aos poucos, todo ano recuperar um pouquinho do pasto”, diz ele.A reforma de uma propriedade pecuária passa pela nutrição do solo, com fertilizantes, fósforo e calcário, a utilização de herbicidas e o loteamento do espaço. “Acaba com o pasto que está lá, gradeia, mexe com a terra e reabre”, resume Pires.O custo fica entre R$ 1.000 e R$ 1.200 por hectare. Já a recuperação de pastagens é mais barata – de R$ 400 a R$ 700 -, inclui a adubagem do solo e a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) – técnica da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e utilizada, por exemplo, no processo de recuperação na Fazenda YKK.”As pastagens brasileiras têm capacidade para manter de 0,7 a 0,8 UAs, com potencial de chegar a três UAs por hectare. Dobrar a produção é algo fácil de fazer, desde que haja aportes em tecnologia”, afirma o consultor.O empresário Agenor Gado, que detém 3.500 cabeças de boi no sul de Tocantins, viu a produtividade de sua terra quase triplicar em seis anos. Tendo investido cerca de R$ 5.000 por hectare no período, inseriu na Fazenda Carioca, no município de Peixe, novos tipos de capim, fez adubagem e correção de solo.

“A pastagem estava totalmente degradada, refizemos todos os pastos e recuperamos, gradualmente, 80% da área”, conta Gado, que optou por não fazer a ILP porque não considera o solo adequado para plantações. Atualmente, sua propriedade gera 1,1 UA vezes cinco mil hectares. “Na época [quando comprou a terra, em 2005], seria 0,4 UA por hectare”.

Segundo estimou Pires, o consultor da DTA, apenas um terço dos pecuaristas brasileiros está avançado com tecnologias e ações para o manejo do pasto.

 

Fonte: Bruno Cirillo – Noticias Agricolas