O alerta é do gerente executivo de Política Econômica da CNI, economista Flávio Castelo Branco

Começou na manhã desta terça-feira, 8 de março, o Wood Trade Brazil, que reúne industriais madeireiros, produtores florestais e profissionais ligados à cadeia produtiva da madeira. O evento, promovido pela Abimci (Associação Brasileira da Indústria da Madeira Processada Mecanicamente), Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) e Malinovski Eventos, acontece no Campus da Indústria e contou com a participação do presidente da Federação, Edson Campagnolo, que deu as boas-vindas aos participantes.

Para Campagnolo, o segmento ligado à base florestal trabalha em perfeita sinergia com a Fiep. Na opinião dele, esse é um dos setores que consegue tirar da crise e do mau momento da economia seus melhores momentos.

“A internacionalização não está muito no DNA do industrial brasileiro, mas o setor de base florestal é um dos poucos que se utiliza do mercado internacional. O momento é interessante, porque o que vem pela frente são oportunidades por conta da desvalorização do real frente ao dólar. A economia brasileira não vai bem e a indústria tem sofrido com o PIB negativo. Portanto, o empreendedor e o industrial devem buscar alternativas. Não podemos deixar que essa contaminação nos leve a perder a esperança. Que vocês continuem cuidando bem de seus negócios, gerando emprego e renda, porque nós teremos dias melhores”, declarou.

Edson Campagnolo, presidente da Fiep, quer que o empresário florestal se "internacionalize mais" Foto: Fabiano Rodrigues
Edson Campagnolo, presidente da Fiep, quer que o empresário florestal se “internacionalize mais”
Foto: Fabiano Rodrigues

Logo após a abertura, Flávio Castelo Branco, economista da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), fez uma das palestras mais aguardadas do evento, falando sobre o “Panorama Econômico do Brasil e os Impactos no Setor Madeireiro”. De acordo com ele, o cenário da economia brasileira é nebuloso e traz bastante incerteza. “A incerteza é mãe da crise, do baixo investimento, do baixo consumo e, portanto, do baixo crescimento. Precisamos afastar as incertezas para voltar a crescer”, disse.

A recessão brasileira, segundo Castelo Branco, vem desde meados de 2014, mas a indústria já vem enfrentando dificuldades há mais tempo. Para o economista, todo esse panorama ruim é resultado de equívocos de políticas econômicas do passado, já que o país insistiu no consumo e no uso excessivo de recursos fiscais. Além disso, a tentativa de segurar o câmbio para evitar a inflação levou à exaustão.

Em 2014, ele conta que o país iniciou a correção desses desequilíbrios, mas o processo avançou num ritmo menos intenso do que era necessário, travado pelo ambiente político deteriorado. Segundo o economista, causas conjunturais como incerteza política, inflação e ajuste fiscal/monetário, e causas estruturais como baixa produtividade, Custo Brasil e desequilíbrio fiscal de longo prazo, determinaram a dimensão da recessão.

Na primeira fase, o governo tentou fazer mudanças nas tarifas públicas, ajustes das contas públicas, racionalização dos subsídios, adequação da taxa de câmbio, reformulação dos benefícios sociais e política monetária contracionista, mas tudo isso acabou dando um choque de custo para o setor produtivo.

“A política mais adequada seria combinar um ajuste macroeconômico com a agenda da competitividade, mas os dois precisam de boa vontade política para ir à frente. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu 3,8% em 2015 e deve cair mais 3,1% em 2016. Isso é um desastre, pois o empobrecimento do país chegou a 10%, e já não crescemos em 2014. É uma situação muito preocupante”, avaliou.

Flávio Castelo Branco destacou que a indústria vem encolhendo desde 2010. Foto: Fabiano Rodrigues
Flávio Castelo Branco destacou que a indústria vem encolhendo desde 2010. Foto: Fabiano Rodrigues

Sobre a indústria, o economista ressaltou que o setor contribuiu com menos de 20% do PIB brasileiro e que a indústria vem encolhendo ao longo dos anos desde 2010. Com relação aos empresários, Castelo Branco afirmou, com base em um levantamento do índice de confiança do empresário industrial feito pela CNI, que a grande maioria trabalha na incerteza e na falta de confiança, o que se reflete no investimento. “Assim, o país cai de produtividade. E os investimentos vêm diminuindo pelo terceiro ano consecutivo”, garantiu.

Segundo o economista da CNI, as incertezas dificultam tomadas de decisão e adaptação ao novo ambiente. Muitos empresários estão em alerta por conta do receio de aumento da carga devido às mudanças tributárias, da pouca transparência na discussão das mudanças de tributos em ambiente de ajuste fiscal e da possibilidade de criação de novos tributos, como a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF).

Setor madeireiro

O segmento de base florestal teve, de acordo com Castelo Branco, um desempenho mais favorável no começo da década, mas depois sofreu grandes dificuldades e acabou perdendo relativamente o desempenho. Em 2015, a indústria da madeira caiu 4,6% e o desempenho da produção foi negativo, assim como aconteceu em outros segmentos industriais.

“Quando olhamos os dados de faturamento, o setor teve, em 2015, um comportamento positivo, enquanto a indústria de modo geral teve queda. Em termos de emprego, toda aquela dificuldade da década passada se traduziu na redução do emprego, mas a queda na indústria de madeira foi menor que a diminuição de emprego na indústria de transformação”, reforçou.

Com relação às exportações, o economista salientou que apesar de a quantidade física ter crescido, o preço vem caindo. Isso quer dizer, de acordo com ele, que o mercado externo também não está tão favorável, mas o que vem compensando é a mudança cambial.

Para o futuro, Castelo Branco revela que a falta de confiança vai se manter intensa e disseminada ao longo 2016, e que a superação da crise será lenta. “Turbinar ou estimular o consumo interno está difícil, o governo não tem combustível para fazer isso. Precisamos alavancar as exportações. O que é preciso fazer, de modo geral, é atuar na competitividade e na produtividade”, completou.

Fonte: Painel Florestal – Abimci