A economia brasileira deixou para trás seus piores momentos e voltou a crescer

A economia brasileira deixou para trás seus piores momentos e voltou a crescer. Vários sinais de uma incipiente recuperação apareceram nos últimos dias. A indústria, o elo fraco na cadeia da recuperação, teve um saldo positivo na criação líquida de empregos. O IBC-Br, a prévia do Banco Central para o comportamento do Produto Interno Bruto, teve alta expressiva em junho, de 0,75%, e os resultados do comércio mostraram vigor, impulsionados em boa parte pelos estímulos concedidos pelo governo ao setores de eletrodomésticos e, principalmente, automóveis. O crescimento, ao que tudo indica, virá em ritmo de moderado a fraco e, mesmo assim, com riscos de alta da inflação.

A maior parte das previsões aponta para uma expansão de 1,5% a 1,8% para a economia no ano. O resultado seria ainda mais magro se não houvesse a parafernália de incentivos dados pelo governo, seja via redução do IPI, seja pela desoneração da folha de pagamentos para alguns setores da indústria. E, mesmo assim, a produção industrial acumula queda de 0,65% em doze meses e 1,7% no ano. Algumas projeções apontam que ela encerrará o ano com recuo ainda maior, de 2%. A volta do crescimento para a faixa dos 4% possivelmente será atingida no último trimestre do ano, mas nada disso está assegurado. Ao contrário de 2008, a reação não será forte nem rápida.

Em 2009 a rápida resposta de todos os países emergentes, em especial a China, grande compradoras de commodities do Brasil, ajudaram o Brasil a sair da recessão. Hoje, os emergentes estão às voltas com quedas na taxa de crescimento e há dúvidas se a China irá ou não conseguir realizar o “pouso suave” de sua economia. A Europa está na lona e não deve se levantar tão cedo. Dela é que se pode esperar as piores notícias, com o latente esfacelamento da união monetária persistindo como um fantasma a assustar periodicamente os mercados. A recuperação americana ocorre aos solavancos e possivelmente seu desempenho no ano será desapontador. Os principais motores da economia global, que arrastaram o Brasil para a expansão há três anos, não estão funcionando com grande potência e isso contribui para a retomada menos vigorosa do Brasil neste ano.

A indústria, porém, não parece preparada a desempenhar dessa vez o papel de ponta na recuperação. Ela perdeu capacidade competitiva depois de anos sob a dupla pressão dos aumentos salariais domésticos e a valorização cambial, que propiciou o avanço das importações em grande escala. Na passagem de uma taxa de expansão de 7,5% para 1,9%, a indústria acumulou grandes estoques e perdeu pontos na utilização da capacidade produtiva. As fortes incertezas advindas do cenário externo e a corrosão das margens, frearam os investimentos.

Mas há fatores puxando na direção contrária que devem empurrar a indústria a melhor performance. O real se desvalorizou em torno de 23% de junho de 2011 a junho passado, o que melhorou a rentabilidade das exportações e encareceu um pouco os concorrentes importados. O consumo continua exibindo boa saúde e a oferta de crédito, ainda que avance a um ritmo mais lento, com folga baterá em dois dígitos. A redução dos juros, em um ciclo que ainda não terminou, ajudará a sustentar a demanda e encolherá os custos financeiros das empresas.

A indústria de transformação deve levar mais tempo para retomar os investimentos porque a ociosidade do parque industrial precisa diminuir razoavelmente. Os maiores investimentos esperados virão do setor de infraestrutura, que poderão ser destravados pelas concessões à iniciativa privada, mas que deverão se materializar a partir de 2013. A construção civil vive pressões contraditórias. A demanda por projetos de infraestrutura joga a favor da expansão, enquanto que a readequação dos portfólios das incorporadoras no mercado residencial, depois de um “boom” de preços, retira parte do fôlego do setor e torna sua performance menos vigorosa se comparada à recuperação de 2009.

A economia voltará a crescer na faixa dos 4%, menos do que os países emergentes concorrentes, carregando velhos fardos que lhe retiram a força. Nos períodos de prosperidade, o peso da infraestrutura deficiente, da excessiva e labiríntica tributação e baixa qualificação da mão de obra são suavizados pela expansão dos negócios. Em tempos difíceis, mostram-se como poderosos obstáculos que são.

Fonte: Valor Online