Todo bom silvicultor necessita, obrigatoriamente, de todas as ferramentas para fazer um trabalho de qualidade

Nelson Barboza Leite
Nelson Barboza Leite

Numa “conversa de boteco” alguns profissionais colocaram em pauta uma questão interessante e que rendeu inúmeras discussões, palpites e sugestões: qual a causa de tanta diferença entre os trabalhos silviculturais das empresas?

No meio de considerações cuidadosas e “cheias de dedo”, há de se registrar a posição firme de um consultor muito conhecido no setor e que vive dentro das empresas discutindo programações, estratégias, modelos organizacionais. Sem rodeios e firulas tascou – “o trabalho de silvicultura é o resultado da competência e do entendimento de toda a equipe de trabalho”.

E animado continuou – “Só pessoas que se falam e se entendem, conseguem soluções para os problemas que surgem no dia a dia, e isso é imprescindível para que a silvicultura vá bem. É premissa fundamental para que a empresa florestal seja bem sucedida”.

O murmurinho geral que se seguiu, exigiu mais explicações, e da mesma maneira e bem objetivamente, o nosso consultor disse: “não adianta dinheiro à vontade, contratações de especialistas e reuniões daqui e dali, o que manda é ter um bom silvicultor e cultivar o relacionamento amigável e cooperativo entre toda a equipe de trabalho – os que fazem e os que dão apoio. Sem isso, só um milagreiro”.

E para concluir, completou – “É impossível se fazer uma silvicultura bem feita, se não se dispuser de toda engrenagem de operação perfeitamente integrada e comprometida com o sucesso. Todo bom silvicultor necessita, obrigatoriamente, de todas as ferramentas para fazer um trabalho de qualidade. E essas ferramentas são representadas pelo conhecimento tecnológico, disponibilidade de insumos, mão-de-obra treinada e equipamentos adequados.

Tudo isso andando junto, na hora certa, na quantidade adequada e no lugar exato”. E bem ao seu jeitão bradou – ”o resto é conversa mole, é tapar o sol com a peneira”. Que lição clara, ousada e desconcertante! Um participante da conversa, muito satisfeito, já foi dizendo: “vou pregar na porta de entrada da minha empresa”.

Depois dessas enfáticas e objetivas colocações, seguiram-se algumas considerações, mas já com a premissa básica definida. Houve uma minoria que esboçou alguma reação, mas foi calada pela concordância da grande maioria. Um misto de realidade e de preocupação com as colocações do consultor! Para quem não atua no setor ou não conhece as dificuldades do dia a dia de um projeto de silvicultura ou de uma empresa florestal, isso tudo pode parecer estranho!

Fala-se de coisas óbvias: em qualquer manual de administração, de organização de trabalho e até nos manuais de “como trabalhar sem sofrimento” – essa premissa do trabalho em equipe, com a equipe e para a equipe é lição das páginas iniciais. Mas, em algumas empresas, essa simplicidade se complica e se torna uma utopia.

A relação entre as pessoas é tão difícil que chega a comprometer a qualidade dos trabalhos silviculturais. E aqui começam as grandes diferenças entre empresas. A execução dos serviços de campo não é tarefa tão simples e corriqueira. É uma mistura de matemática, biologia e algumas pitadas de psicologia! Em alguns casos, as ferramentas usadas pelo silvicultor são manejadas por cabeças diferentes na mesma empresa.

O uso sincronizado dessas ferramentas parece ser o segredo da boa silvicultura, do sucesso dos empreendimentos e a arte dos gestores do empreendimento. E aqui entra a pitada de psicologia no tradicional pacote de matemática e biologia. É muito comum que cabeças diferentes, pensem diferente. Mas o grande problema é quando essas cabeças pensando diferente criam mundos independentes, com prioridades próprias e se descolam da atividade fim da empresa.

Aqui começam as dificuldades, surgem os problemas sem solução, a silvicultura fica sacrificada e as diferenças entre empresas se evidenciam! Nesse ponto, a equipe já se transformou em turmas e todas disputando o mesmo campeonato, umas na parte de cima e outras na parte de baixo da tabela. É só uma visita de campo nessas empresas e observa-se o retrato fiel desses desencontros!

Foi uma lição profissional e de vida para o grupo, mas mesmo assim, surgiram, sorrateiramente, algumas justificativas daqueles mais abatidos, mas nada tão contundente, quanto às considerações do nosso amigo consultor. Com certeza, vou receber uma ligação telefônica dele e vou ouvir: você não me avisou que ia falar disso! Vou agradecer a lição dada e dizer da importância de se compartilhar o privilégio daquela conversa com os profissionais do setor!

Vou informá-lo, também, que irei falar a respeito de outros temas tratados naquela “conversa de boteco”. E foi uma conversa longa… São registros para reflexão e que devem fazer bem às pessoas e muito mais à silvicultura brasileira. Com certeza, o nosso amigo vai concordar!

Fonte: Painel Florestal