As previsões para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano começaram a ser revistas nos últimos dias

As previsões para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano começaram a ser revistas nos últimos dias. Não se fala mais nos 4,5% esperados pelo governo nem nos 3,5% estimados pelo Banco Central (BC). As projeções mais recentes caíram abaixo de 3%, com sério risco de repetir os pífios 2,7% do ano passado.

A mudança de perspectiva ocorreu após a divulgação dos mais recentes dados da produção industrial. Qualquer que seja o ângulo a partir do qual se examine os números, há queda na produção.

A Pesquisa Industrial Mensal (PIM) de março do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que a produção recuou 0,5% em relação a fevereiro, quando havia aumentado 1,2% sobre janeiro, ocasião em que havia despencado mais de 1,5% sobre dezembro. O saldo desse zigue-zague é negativo, com a produção industrial encolhendo 2,9% no acumulado do ano. Na comparação com março de 2011, houve recuo de 2,1%, o sétimo consecutivo na mesma base de comparação.

Houve contração em 18 das 27 atividades avaliadas pelo IBGE. As quedas mais expressivas na comparação com fevereiro foram na produção de equipamentos de instrumentação médico-hospitalar e ópticos, de 10,1%; edição, impressão e reprodução de gravações, de 7,1%; de materiais eletrônicos, aparelhos e equipamentos de comunicações, de 6,9%; e refino de petróleo e produção de álcool, de 3,6%. Um dos poucos setores a mostrar recuperação foi o da produção de veículos automotores, com expansão de 11,5% em comparação com fevereiro, acumulando 26,2% em dois meses, mas apenas compensando parte da queda de 31,2% de janeiro, que havia sido a maior desde dezembro de 2008, no auge do impacto da crise global sobre o Brasil.

Do ponto de vista das categorias de uso, os destaques negativos foram os bens intermediários, cuja produção caiu 0,9% depois de ter crescido 2,1% em fevereiro sobre janeiro, e o de bens de consumo semiduráveis e não duráveis, com recuo de 0,8%, depois de quatro altas consecutivas. O destaque positivo ficou com a produção de bens de capital, que cresceu 3,8% sobre fevereiro, a segunda alta consecutiva depois da contração de janeiro. Além disso, a produção de bens duráveis, influenciada pela expansão do setor de veículos, teve alta de 3,4%.

Já se desconfiava que o aumento da produção de veículos não era totalmente sustentável e se daria à custa do aumento dos estoques. A suspeita foi confirmada nesta semana com a divulgação, pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, do forte crescimento dos estoques de veículos, o que contribuiu para reforçar o pessimismo com a evolução do PIB.

O estoque de veículos atingiu, em abril, o correspondente a 43 dias de venda, o patamar mais elevado desde novembro de 2008, quando o encalhe era equivalente a 56 dias de vendas. A produção de veículos (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus) caiu 15,5% em comparação com março. Considerando apenas automóveis e comerciais leves, a queda foi de 14,9%. As vendas também recuaram 14,2% sobre março. Há estoques elevados em outros setores da indústria. Em abril, segundo Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação da Fundação Getúlio Vargas, estava com estoques excessivos um terço dos 31 ramos industriais mais importantes grupo que inclui da indústria de automóveis à de confecções e material de construção.

Os dados mostram que as medidas de estímulo à economia tomadas pelo governo não fizeram efeito ainda. A indústria enfrenta a concorrência dos importados, excesso de oferta internacional de manufaturados, pressão de custos, maior dificuldade nos mercados externos, como a Argentina, importante consumidora de manufaturados brasileiros.

Apesar da redução do peso da indústria no PIB, o setor ainda é importante para sustentar a economia brasileira e tem correlação com o nível de atividade em serviços como transportes e comunicações.

Por isso, a desaceleração da indústria tornou pessimistas as previsões para a evolução do PIB neste ano. O outro lado dessa moeda mostra que há espaço para mais cortes de juros e que são necessárias medidas mais vigorosas e profundas de estímulo à indústria, e não os paliativos até agora anunciados.

Fonte: Valor Online