A inflação, medida pelo IPCA-15, voltou a crescer. Avançou 0,65% em outubro, surpreendendo tanto o mercado quanto o BC, que apostavam numa inflação mais comportada neste mês

A inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), voltou a crescer. Avançou 0,65% em outubro, surpreendendo tanto o mercado quanto o Banco Central (BC), que apostavam numa inflação mais comportada neste mês. No acumulado de 2012, o IPCA-15 atingiu, faltando dois meses para terminar o ano, a meta oficial fixada pelo governo – 4,49%. Nos 12 meses até outubro, chegou a 5,56%.

O IPCA-15 é importante porque funciona como “proxy” da inflação no mês. O resultado de outubro comprova que a economia brasileira está, desde julho, em processo de aceleração inflacionária. Depois de cair a 5% nos 12 meses acumulados até junho, vindo de uma inflação de 6,44% em janeiro, desde então o indicador não parou mais de subir.

Há uma explicação preponderante para a alta dos preços nos últimos meses. A quebra da safra agrícola nos principais países produtores forçou uma alta expressiva dos preços de alguns produtos. No Brasil, os preços dos itens in natura subiram de forma significativa, puxados pelos preços internacionais e pela quebra das safras de arroz e feijão.

A alta dos preços de alimentos respondeu, segundo o IBGE, por 57% do IPCA-15 de outubro. O indicador mostra que o grupo alimentação e bebidas, que tem grande peso na inflação brasileira, saltou de 1,08% em setembro para 1,56% em outubro. O preço do arroz subiu 11,91% e o das carnes, 2,92%.

Trata-se, portanto, de um típico choque de oferta. O problema é que os números do IPCA-15 mostram que a inflação de produtos não alimentícios também está acelerando. De setembro para outubro, a alta desses preços pulou de 0,30% para 0,37%, com destaque para energia elétrica (0,67%), taxa de água e esgoto (1,32%), artigos de limpeza (0,55%) e artigos de higiene pessoal (0,66%). Entre as nove classes de despesa usadas no cálculo do IPCA-15, houve elevações de preços em sete.

Economistas do Itaú Unibanco constataram que os núcleos de inflação, que retiram do cálculo efeitos temporários e os itens mais voláteis, também aceleraram fortemente em outubro. O índice de difusão, que mede a proporção de produtos com variação positiva de preços, atingiu 66% em outubro. Sem dúvida, as notícias não são nada boas.

Principal responsável pela política de combate à inflação, o Banco Central foi desmentido pelos fatos. A instituição, segundo apurou o Valor, acreditava que o pico do choque de preços em curso tinha ocorrido em setembro. Em outubro a inflação cederia, retomando a trajetória em direção à meta de 4,5%. Como isso não está ocorrendo, 2012 será mais um ano, o terceiro consecutivo, em que o IPCA não ficará na meta ou abaixo dela.

O governo acredita que dará contribuição importante para conter a escalada dos preços nos próximos meses. Em janeiro, 25 setores da economia terão a folha de pessoal desonerada. Além disso, a partir de janeiro as tarifas de energia terão redução média de 20,2%, sendo 16% para residências e até 28% para indústrias.

Brasília pretende atuar, ainda, no convencimento de prefeitos de capitais importantes para moderar os reajustes de tarifas de ônibus em 2013. O objetivo é diluir os aumentos ao longo do tempo. No setor de combustíveis, é praticamente certo que o governo não obrigará mais a Petrobras a segurar a elevação dos preços, mas, mesmo nesse caso, a ideia é adotar medida que reduza o impacto das correções nos preços finais.

A preocupação do governo é evitar que a inflação obrigue o Banco Central a elevar a taxa básica de juros (Selic) em 2013. O próprio BC indicou que manterá a Selic estável em 7,25% ao ano “por um período de tempo suficientemente prolongado”. É certo, porém, que só conseguirá cumprir a promessa se o IPCA voltar a entrar em trajetória de queda.

Em entrevista ao Valor, o economista Mário Mesquita, que foi diretor do BC entre 2006 e 2010, fez uma advertência importante. Segundo ele, se quiser impedir o aumento da inflação em 2013, ano em que ele acredita que a economia pode crescer mais de 4%, o BC terá que deixar a taxa de câmbio flutuar, para auxiliar a política de combate à inflação. Do contrário, prevê Mesquita, a autoridade monetária será forçada a elevar os juros.

Será que o governo está disposto a aceitar a apreciação do real frente ao dólar? Provavelmente, não. Duas das principais autoridades econômicas – o ministro Guido Mantega e o secretário Nelson Barbosa – declararam que, daqui em diante, o câmbio no Brasil só flutuará para cima.

Fonte: Valor Online