Bem cotada no mercado, oleaginosa é opção de safrinha em algumas regiões e oferece vantagens agronômicas e financeiras

“Recebemos um único pedido da Europa que, para atender, precisaríamos de uma área de produção equivalente a 1,2 milhão de hectares. Atualmente, o Brasil planta 200 vezes menos que isso. Temos apenas 60 mil hectares”.
A afirmação é do pesquisador da Gilberto Tomm, da Embrapa Trigo, e revela apenas em parte a dimensão do potencial que a cultura da canola vislumbra hoje pela frente. Cotada pelo mesmo valor da soja no mercado, a oleaginosa é a principal fonte de matéria-prima para o biodiesel na Europa, onde 70% de sua produção destinam-se a essa finalidade e onde também não há mais muitas áreas para expansão das lavouras. Além disso, o óleo de canola é um dos melhores e mais saudáveis para a alimentação humana por diminuir os riscos de problemas cardíacos e ajudar a reduzir o colesterol. Some-se a isso o crescimento da preocupação com a qualidade alimentar da população e o fato de o poder aquisitivo do brasileiro estar aumentando. Ou seja, dentro e fora do país, há mercado consumidor constituído e a rentabilidade é alta.
Já sob o ponto de vista agronômico, a canola como opção de safrinha ou safra de inverno tem se mostrado benefícios diretos e indiretos para as culturas subsequentes. Por ser uma planta das famílias das brassicaceae — como o repolho e a mostarda —, plantada em sucessão ajuda a diminuir a pressão de doenças em gramíneas como o milho plantado na safra de verão ou o trigo na safra de inverno do ano seguinte. Produtores de soja que utilizam a canola como safrinha têm registrado aumento de 400 a 500 quilos de soja a mais por hectare no verão, um resultado obtido também pelo resíduo do fertilizante aplicado no cultivo da canola, que não sendo totalmente utilizado pela cultura fica para lavoura seguinte.

Para o pesquisador Gilberto Tomm, a comercialização é facilitada pela concorrência entre as várias empresas interessadas no produto.

Ociosidade
Tomm explica que no Sul do Brasil, ao entrar após a cultura de verão, a canola tem permitido o aproveitamento toda a infraestrutura já existente e que muitas vezes fica ociosa, como a terra, máquinas, pessoas, estrutura de armazenamento, recebimento de grãos e transporte.
“Não só para os produtores, mas também os parques industriais regionais podem se beneficiar. Muitos deles, durante alguns períodos do ano têm ociosidade, pois são feitos para a extração de óleo de soja e há períodos no ano com pouca matéria prima. A indústria de biodiesel, que possui uma capacidade instalada bastante superior à utilizada para a sua finalidade, também é beneficiada” — afirma.

Incentivos
Há apoio governamental ao cultivo da canola. Através do zoneamento agrícola, os produtores interessados tem acesso ao seguro agrícola para a cultura, com isso, diminui ou praticamente elimina os riscos de prejuízo com a lavoura.
“Mesmo que ele perdesse toda a lavoura por causa, por exemplo, de uma chuva de granizo às vésperas da colheita, ainda assim ficaria a cobertura de solo, e muitos agricultores no Sul cultivam aveia ou nabo forrageiro apenas para cobrir o solo e desta forma têm despesas com semente, a semeadura e depois com a dessecação. Em plantando canola, mesmo que não tivesse a oportunidade de lucro por conta de uma eventual intempérie, ele, ainda assim, teria todos os benefícios indiretos que ela proporciona. Assim a canola hoje constitui uma oportunidade fantástica porque os preços da soja estão entre os maiores já vistos e consequentemente para a canola”.

Começando a plantar
Em função de algumas diferenças na tecnologia de produção da canola. Que requer uma regulagem diferenciada das semeadeiras para o plantio e, para a colheita é necessário treinamento para identificar o momento correto. Por motivos como esses e também pelo fato de a canola apresentar resultado melhores em solos de boa fertilidade e com boa adubação, seu cultivo é feito pelos produtores mais tecnificados, ou seja, os que mais seguem as recomendações agronômicas, independentemente do tamanho da propriedade.
No noroeste do Rio Grande do Sul há produtores de 10 hectares e produtores com áreas de 500 ou mais hectares com canola. Em geral, produtores de soja que estejam com produtividades acima de 3 mil quilos por hectare, têm o perfil de solo já adequado a receber a canola. Tomm explica que produtores nesse patamar demonstram também possuir meios de produção e capacidade gerencial para manejar adequadamente a canola para obter bons resultados.
Em Arapoti, PR, produtores já na primeira safra tiveram o resultado de 2.400 quilos por hectare. Levando-se em conta que o custo de produção equivale a 900 quilos (15 sacas), o exemplo mostra o quão lucrativo pode ser a lavoura. O pesquisador aponta que com um custo de produção 900 quilos por hectare e colhendo, por exemplo, 1.800 quilos, o produtor já está dobrando o dinheiro investido nos quatro meses no período de inverno, quando normalmente a área é pouco explorada.

Altitude
No Brasil Central, em função das baixas latitudes e também pela canola ser uma cultura de temperaturas mais amenas, o recomendado são as áreas com altitude acima de 600 metros, quando a latitude é menor que 17°. Nessas regiões, há favorecimento do enchimento de grãos e também evita-se o abortamento de flores.
Com relação às condições edafoclimáticas, a canola é uma cultura extremamente flexível a tipos diferentes de solo. Exemplo disso são lavouras bem-sucedidas no Estado da Paraíba, mais precisamente no município de Areias, onde são plantados os mesmo híbridos usados no Sul do País. A exigência é a altitude, que deve ser superior a 600 metros.
“Trata-se de uma das culturas mais adequadas em termos mundiais para regiões de clima frio e desafiador como esses locais de maior altitude e baixas temperaturas. Por outro lado é muito cultivada no Canadá e na Austrália, em locais de pouca chuva. Há casos de sucesso em regiões no Mato Grosso do Sul com menos de 100 milímetros de chuva. Temos ótimas experiências também no sudoeste de Goiás, Minas Gerais e São Paulo”.

As sementes de canola não estão disponíveis em revendas agropecuárias, pois devem se adquiridas junto com o pacote de recomendações técnicas.

Vantagens ambientais
Segundo o pesquisador, a canola tem vantagens ambientais importantes. Em função da introdução de materiais resistentes às principais doenças, não se tem feito aplicação de fungicidas. “Empregamos muito pouco na cultura e há lavouras em que efetivamente não se usa qualquer tipo de defensivo. Isso baixa o custo de produção, reduz os riscos para o produtor e o impacto ambiental é muito pequeno”.

Recado
O grande desafio hoje é divulgar essas tecnologias para que produtores e empresas percebam esse grande potencial e plantem canola. Oportunidade que o Brasil possui para a produção de alimentos. Atualmente, a produtividade média no Brasil gira em torno dos 1.500 a 1.600 por hectare, mas a tendência natural é de elevação, conforme o domínio das técnicas de manejo da lavoura for crescendo entre os produtores. Para o pesquisador, a tendência é que se caminhe para chegar a níveis semelhantes aos já obtidos em campos experimentais, onde a produção com esses mesmo materiais pode chegar a 4.500 quilos por hectare.
As sementes de canola não estão disponíveis em revendas agropecuárias. Tomm revela que a razão para isso é para que sejam sempre disponibilizadas ao produtor junto com a tecnologia. “Existem empresas (como cooperativas) nos estados que fazem o fomento à produção e essas sementes são oferecidas junto com treinamentos, assistência técnica e palestras. A primeira vez que o agricultor vai semear canola a regulagem do maquinário é feita com o apoio dessas empresas e também. Além disso, essas empresas garantem a compra e o recebimento do produto. Desde modo, temos um conjunto de tecnologias que são disponibilizados com vistas a aumentar as chances de sucesso com a cultura” — destaca.
A principal recomendação do pesquisador é que, independentemente da região brasileira, antes de começar a plantar, é importante que o produtor estabeleça um vínculo com uma dessas empresas. Se houver dificuldade em identificar uma delas, pode entrar em contato com a Embrapa Trigo, que indicará a empresa mais próxima que está atendendo a sua região. Isso evita problemas elementares como o escoamento da produção. Pelo fato de a canola ainda ser uma cultura de pouca tradição no Brasil, em algumas regiões não há empresas que façam o fomento, mas reunindo um grupo de produtores interessados, as empresas podem se deslocar à nova região.

Fonte: Portal Dia de Campo