O Banco Central (BC) vai reduzir a taxa básica de juros (Selic) enquanto a inflação acumulada em 12 meses estiver em queda

O Banco Central (BC) vai reduzir a taxa básica de juros (Selic) enquanto a inflação acumulada em 12 meses estiver em queda. Se os prognósticos feitos por dirigentes do próprio BC estiverem corretos, e que preveem recuo do IPCA em 12 meses até maio ou junho, o processo de corte da Selic será mantido pelo menos até meados do ano. A estratégia pode até ser acelerada se houver agravamento da crise europeia, hoje menos provável.

De fato, o Brasil iniciou 2012 num ambiente muito menos inflacionário do que aquele do começo de 2011. A inflação no mês passado ficou em 0,56%. Em janeiro do ano passado, atingira 0,83%. O IPCA-15 acumulado em 12 meses até fevereiro está em 5,98%, o que mostra um claro recuo do custo de vida – o IPCA cheio até dezembro estava em 6,50% e nos 12 meses acumulados até janeiro, em 6,22%.

A inflação caiu porque as razões que a levaram a subir no último trimestre de 2010 e no primeiro de 2011 não estão mais presentes – a forte alta dos preços das commodities e a demanda interna aquecida. Nos dois últimos trimestres, a economia brasileira pode ter crescido abaixo do potencial.

BC reage a fluxo de capital e aumento do diferencial de juros

“O Banco Central naturalmente em 2011 foi super ativo, o governo idem, no combate à inflação – medidas fiscais, macroprudenciais, juros. Houve uma desaceleração forte da economia. Nós entramos neste ano girando a uma velocidade bem menor, mas a economia vai pegar alguma velocidade lá na frente”, sustenta uma fonte graduada do governo.

O quadro inflacionário interno é beneficiado, na avaliação do governo e do BC, pela desaceleração da economia mundial em 2012. Contração na Europa, crescimento baixo nos Estados Unidos e pouso suave da economia chinesa devem manter os preços das commodities comportados. Ademais, por causa da desaceleração do PIB global, os preços dos bens industriais devem continuar deprimidos, o que, combinado com a valorização do real frente ao dólar, também ajuda a tirar pressão do IPCA.

O processo de desalavancagem das economias americana e da zona do euro tomará tempo. Ninguém sabe quanto, mas as políticas adotadas pelo Federal Reserve (Fed) e o Banco Central Europeu (BCE) para manter a estabilidade financeira e reanimar a atividade econômica indicam um processo longo, de pelo menos três anos. Na literatura econômica, economistas como Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart constataram que, historicamente, processos de desalavancagem duram, em média, sete anos.

A reação dos bancos centrais das economias avançadas à crise mundial é outra razão para a decisão do BC de avançar com o processo de redução dos juros nos próximos meses. A forte expansão monetária no mundo – ontem, durante depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o presidente do BC, Alexandre Tombini, falou em aumento total de ativos de US$ 4,6 trilhões entre 2008 e 2012 -, a redução da aversão a risco e a elevação do diferencial de taxa de juros voltaram a direcionar fortes fluxos de capitais para países como o Brasil. Quanto maior for o diferencial de juros, mais dólares entrarão no país e maior será o risco de ocorrência de desequilíbrios na economia doméstica- da apreciação excessiva da taxa de câmbio ao aumento da exposição cambial de empresas não-financeiras.

Tombini fez questão de citar, no Senado, a taxa de juros básica de países como Estados Unidos (entre zero e 0,25% ao ano), zona do euro (1%), Reino Unido (0,25%) e Japão (entre zero e 0,1%). Segundo cálculo do ValorData, em janeiro o diferencial de juro real entre Brasil e EUA estava em 6,61 pontos percentuais. Já foi maior – 8,5 pontos, por exemplo, em julho de 2011.

Não há dúvida de que o juro básico brasileiro, dadas as distorções da economia nacional, sendo a principal delas a existência de um volume significativo de crédito direcionado, fora do alcance da política monetária, tem que ser maior que o das economias avançadas e mesmo de algumas emergentes, como o Chile. O que o BC começa a questionar é se, diante da manutenção dos juros nas nações ricas em patamares historicamente baixos, a taxa Selic precisa ser tão maior assim.

É possível que o BC teste o mercado nos próximos meses. A ideia é a de que exista, além dos obstáculos estruturais conhecidos, uma espécie de limite psicológico à queda dos juros, algo relacionado às expectativas dos agentes econômicos. Evidentemente, a autoridade sabe que a inflação é sensível à Selic real, mas quer verificar até onde. De toda forma, o BC só avançará na sua estratégia enquanto os preços estiverem em queda.

Setores do mercado já entenderam que a atual diretoria do BC é bastante conectada com o que ocorre lá fora. As ações de política monetária respondem a circunstâncias externas e não apenas à inflação e à atividade econômica aqui dentro. Há, entretanto, resistências a essa postura.

“O mercado vai entender que o BC não vai abrir mão da sua responsabilidade de conduzir a inflação para o centro da meta. O BC tem um conjunto de instrumentos amplos, eles foram utilizados em 2011, de certa forma alguns continuam. Não vai ficar passivo lá na frente, no futuro, tendo inflação mais alta porque tem meta disso ou daquilo e não a meta de inflação”, sustenta uma autoridade.

“Já houve um aprendizado em 2011: o de que o conjunto de medidas foi um conjunto forte, de que a economia desacelerou ao longo do ano, a inflação agora está voltando [à meta]. Há uma distância, em relação ao que o mercado espera, bem mais baixa da que fechou o ano. O IPCA fechou em 6,5% e, hoje, o mercado espera 5,3% para 2012”, compara uma fonte. “O BC está com uma projeção abaixo de 5% – 4,7%. Há uma grande chance de uma convergência maior ao longo do ano.”

Não há na opinião do governo motivo para se preocupar com uma possível alta da inflação em 2013, provocada pelo alívio monetário em curso. “Não vemos nada neste momento que gere preocupação em relação a 2013, mas vamos monitorar”, assegura um assessor.

Fonte: Valor Online