O Brasil é a chave para a América Latina”, declarou o senador norte-americano Richard Lugar. As palavras do líder republicano na comissão de relações exteriores do Senado daquele país ecoaram uma observação feita há quatro décadas pelo presidente Richard Nixon, para quem o Brasil era a “chave do futuro” da política externa dos EUA para a América Latina. Diante das idas e vindas do relacionamento bilateral nas últimas décadas, classificado por alguns como uma relação de indiferença benigna, a analogia não parece ser muito esclarecedora.

Durante um breve período da Guerra Fria, o governo dos EUA elaborou a ideia de elevar relacionamentos bilaterais com algumas potências regionais como meio de compartilhar parte da responsabilidade de sua política global de contenção comunista. É razoável acreditar, portanto, que a analogia do “país-chave” era uma referência à importância do Brasil no tabuleiro estratégico da América Latina. Análises históricas recentes, contudo, sugerem que, apesar da retórica ambiciosa, o engajamento entre os dois países permaneceu vago durante boa parte daquele período (ver “Kissinger e o Brasil”, de Matias Spektor — 2010).

Desde o fim da Guerra Fria, as relações Brasil-EUA têm sido difíceis de rotular. Apesar das características e dos valores comuns entre as duas maiores democracias e economias do hemisfério ocidental, a agenda bilateral tem sido muito menos ambiciosa quando comparada com a de outros países da região ou outras potências emergentes. O fato que as similitudes e as possibilidades de cooperação entre os dois países não se traduzem em políticas concretas é, para algumas autoridades de lado a lado, um sinal de um descompasso paradoxal.

Parte do problema decorre de diferentes percepções nos dois países. Enquanto Washington ainda tende a enxergar a América Latina por meio de uma mentalidade maniqueísta remanescente da Guerra Fria, Brasília parece encontrar dificuldades para chamar a atenção do establishment de política externa dos EUA. Frequentemente muitas iniciativas políticas dos EUA para a região são percebidas pelo Brasil como respostas a outras questões que preocupam Washington. Se antes era o comunismo, hoje é o populismo nacionalista, o terrorismo e a crescente influência da presença econômica da China que funcionam como incentivos para a conformação da agenda latino-americana dos EUA.

Essa abordagem, entretanto, tende a distorcer as nuanças políticas e econômicas que existem na região. Muitas das mesmas iniciativas de Washington que são vistas como oportunidades promissoras para alguns países são recebidas com ceticismo ou mesmo resistência pelo Brasil. Negociações de livre comércio e, até certo ponto, cooperação militar são alguns exemplos. Ademais, é difícil imaginar que o Brasil possa ter qualquer influência sobre as relações dos EUA com o México, a América Central, a Colômbia ou até mesmo o Chile. Se for esse o caso, parece que a própria ideia da América Latina, ainda bastante popular nos círculos políticos de Washington, está defasada. Aliás, cabe lembrar que desde o final dos anos 90 o Brasil vem redesenhando os limites de seu entorno estratégico para abarcar apenas a América do Sul.

Há também obstáculos para a intensificação das relações Brasil-EUA também do lado brasileiro. É uma linha tênue que separa uma política externa mais assertiva do antiamericanismo que facilmente encontra lugar na retórica diplomática. Um dos fatores por trás da política externa regionalista do Brasil, aliás, foi o receio com a influência americana (econômica e militar) sobre os vizinhos brasileiros. Em parte, essa mesma lógica está presente por detrás da estratégia mais recente do Itamaraty de valorizar as coalizões de potências emergentes, como os Brics, para elevar a influência do país em assuntos globais.

De todo modo, certamente há espaço para que as relações entre os dois países avancem, principalmente na área comercial e em cooperação tecnológica e de energia. Todavia, diferentemente de outras grandes economias da região, ao Brasil não interessa ajuda ou um acordo de livre comércio com os EUA. Os interesses brasileiros, diante da superpotência, se assemelham muito mais com os de outras potências regionais em ascensão, como a Índia. O presidente Obama em visita ao país no ano passado, aliás, parece ter percebido isso quando defendeu tratar o Brasil como os EUA tratam a China e a Índia. Naturalmente essa ideia deverá criar um ambiente favorável para a visita da presidente Dilma Rousseff àquele país em março.

Neste momento, portanto, a moeda de troca entre Washington e Brasília é reconhecimento. Essa é a verdadeira chave que poderá abrir a porta para um relacionamento mais estreito entre os dois países no futuro.

JOÃO AUGUSTO DE CASTRO NEVES é cientista político.

Fonte: O Globo