O governo deve buscar alternativas ao déficit de armazenagem

É iminente o crescimento da produção brasileira nesta próxima safra, onde devemos de longe superar os 165,5 milhões de toneladas obtidos em 2012.

Algumas estimativas apontam números próximos aos 200 milhões de toneladas, e este número sem dúvida é possível, uma vez que se o clima nos for favorável, só na soja, podemos crescer 20 milhões de toneladas e outras 10 milhões de toneladas no milho. Mas o que deveria ser só comemoração traz sérias preocupações.

Nos principais fóruns nacionais e internacionais que discutem os gargalos da cadeia produtiva do agronegócio brasileiro, os temas centrais são infraestrutura e mão de obra. De infraestrutura me refiro à logística, armazenagem, etc. Já no quesito mão de obra o problema é referente à qualificação e quantidade disponível.

“Em Mato Grosso o problema da falta de armazéns é ainda mais crítico, sendo que na próxima safra a capacidade de estocagem pode ser de apenas 60% da produção” Os investimentos e os programas logísticos nem de longe têm acompanhado o dinamismo da safra brasileira. Para se ter uma ideia, segundo dados da Conab, a capacidade de estocagem da safra brasileira é de cerca de 135 milhões de toneladas, o que gera um déficit de 30 milhões de toneladas em 2012. Então, imaginem agora que podemos chegar a 200 milhões. Ou seja, podemos constatar na próxima safra o maior apagão de armazenagem da história.

Embora o governo lance programas para a construção de armazéns, teria que fazer um esforço muito concentrado para suprir a defasagem, pois o descompasso entre a produção e a capacidade de estocagem no Brasil sempre foi grande. Ao contrário de muitos países, onde a infraestrutura se antecipa ao prognóstico de crescimento de produção, aqui estamos sempre defasados, e, pior, quem paga o prejuízo pelo empreendedorismo é somente o produtor.

O governo deve urgentemente buscar alternativas ao déficit de armazenagem. Será impossível solucionar em uma safra, ainda mais que ela já começou e não temos mais tempo hábil. É salutar buscar alternativas como silobag, armazéns de lona, que entre outras seriam alternativas temporárias, mas que serviriam para amenizar o problema, além de flexibilizar e descentralizar o financiamento, visto que o financiamento não pode ser centralizado no Banco do Brasil e nem imaginar que o produtor consiga todas as certidões em tempo recorde. É preciso tratar o tema como emergencial e prioritário, pois ele é.

Em Mato Grosso o problema da falta de armazéns é ainda mais crítico, sendo que na próxima safra a capacidade de estocagem pode ser de apenas 60% da produção. O problema se agrava ainda mais devido à produção de culturas diversas e suas diferenciações, como soja convencional e transgênica, milho, sorgo, girassol e arroz. Nesta safra já tivemos milho a céu aberto, imaginem a que iniciamos quando a soja e o milho podem ter um acréscimo de cinco milhões de toneladas.

Diversos fatores agravam ainda mais a nossa futura capacidade de estocagem como: burocracia na tomada de empréstimos para construção de armazéns (agravada pelo endividamento de uma parcela significativa dos produtores), dificuldade de financiamentos pelos pequenos produtores, ou seja, tudo isto faz com que o Brasil – entre os principais produtores de grãos do mundo – seja o país com menor capacidade de estocagem nas propriedades.

O agronegócio brasileiro deve crescer muito rapidamente nos próximos 10 anos, e é preciso que o governo faça um real esforço para responder ao dinamismo da agricultura, caso contrário teremos diversos apagões no sistema de armazenagem, escoamento e exportação de nossa produção. O problema é grave e o máximo que for possível fazer será ainda pouco, uma vez que estamos muito defasados. E ressalto, não é que o governo desconhecesse o potencial crescimento, o que ocorre são as prioridades, e o agro nunca foi prioridade.

A próxima safra também enfrentará problemas sérios de escoamento seja por congestionamento de estradas, nos portos, nos armazéns, o que trará graves danos à produção, onerando custos principalmente de transporte, o que já estamos constatando hoje com o aumento de fretes seja na entrega dos insumos da produção ou no escoamento desta.

A questão portuária me preocupa muito. Nossos portos já estavam acima de seu limite, e como imaginar que consigam absorver um aumento de 20% da safra brasileira? O problema se agrava porque hoje mais de 70% da safra de soja brasileira é exportada pelos portos do sul e sudeste, que estão estrangulados. Se aliarmos a estes problemas de infraestrutura portuária questões trabalhistas de jornada de trabalho, é de colocar a mão na cabeça e dizer: “Meu Deus!”.

Outro fator fundamental ao crescimento da produção que está tirando o sono dos produtores é a falta de mão de obra, não só pela quantidade, mas também pela qualificação. Se imaginarmos só o crescimento da área de soja no Brasil precisaríamos de, no mínimo, de 5.000 novos trabalhadores diretos capacitados para atuar com as novas tecnologias de produção. Porém, isto não tem sido simples, primeiro porque as pessoas têm preferido trabalhar na cidade, e depois porque não é simples treinar pessoas num curto espaço de tempo.

Fatores como logística e mão de obra têm afetado todos os segmentos produtivos. Com o crescimento projetado para o Brasil nos próximos anos será preciso enfrentar isso fazendo esforço dobrado como os asiáticos, mas infelizmente no Brasil tudo é na contramão: quando precisamos trabalhar mais para enriquecer e aproveitar as oportunidades, chegam os “do contra” e querem reduzir jornadas, proibir investimentos, tudo passa a ser proibido e não sustentável. Sinceramente, não entendo, você entende?

Glauber Silveira é produtor rural, engenheiro agrônomo, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) E-mail: glauber@aprosoja.com.br Twitter: @GlauberAprosoja

Fonte: Expresso MT