Com a queda dos preços do café este ano depois dos recordes de 2011, quando superaram US$ 3 a libra-peso na bolsa de Nova York, a rentabilidade média da cafeicultura brasileira está até 40% menor, dependendo do modelo de produção

Segundo cafeicultores, a remuneração atual se aproxima dos patamares de 1994 a 2009, quando as cotações ficaram estagnadas e os custos cresceram expressivamente. Como “ativo financeiro”, o café também não tem sido um bom negócio este ano, na avaliação de Gil Barabach, analista da Safras & Mercado. O preço médio da saca de 60 quilos no Sul de Minas, tradicional região produtora de café de qualidade, caiu 24% até o fim de setembro em relação ao mesmo período de 2011. Descontada a inflação, a perda foi de 29,4%. No ano passado, o valor médio da saca variou entre R$ 502 e R$ 503, enquanto em 2012 está em R$ 403. Mas, ainda assim, supera a cotação média de 2010 (R$ 314).

Os produtores reclamam que os custos aumentaram muito. Armando Matielli, presidente da Sincal (Associação dos Sindicatos dos Produtores de Café), afirma que os custos diretos com mão de obra, por exemplo, saltaram cerca de 30% nesta safra 2012/13 ante a temporada passada. Aliados aos preços mais baixos – atualmente entre R$ 350 a R$ 400 a saca do arábica na média nacional, contra R$ 500 no ciclo passado -, a rentabilidade caiu de 30% a 40%, pelos seus cálculos. Matielli afirma que o custo de produção nas regiões serranas, que representam 72% do parque cafeeiro brasileiro, está entre R$ 400 e R$ 450. Somente o custo médio com a colheita está em torno de R$ 250 por saca.

É justamente o modelo de cafeicultura que pode significar remuneração maior ou menor, na avaliação de Breno Mesquita, presidente da Comissão de Café da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Mas ele acredita que os atuais preços domésticos, de maneira geral, ainda são remuneradores para o segmento.

A cafeicultura mecanizada está trabalhando no azul enquanto a montanhosa, que apresenta custos de produção mais altos, está apenas cobrindo o custo operacional, acrescenta Mesquita. A rentabilidade deste ano também foi influenciada pelas chuvas atípicas na colheita, que prejudicaram a qualidade do grão, acrescenta Matielli.

Os últimos dados da Comissão de Café, obtidos em parceria com a Universidade Federal de Lavras (MG), mapeiam o custo operacional efetivo (COE) desta safra 2012/13 em algumas regiões produtoras. Esse custo operacional considera apenas o desembolso direto para a produção e inclui gastos com mão de obra, fertilizantes, defensivos, energia, impostos e taxas, mas não considera a depreciação das benfeitorias e máquinas. E também não representa uma média da região, mas uma “moda” (propriedade típica do local).

Segundo o levantamento, o COE registrado para esta safra foi de R$ 390 por saca em Manhumirim, na Zona da Mata de Minas, com produtividade de 27 sacas por hectare. A produtividade mencionada também não é a média, mas a típica da região. Já em Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano, onde a cafeicultura é mecanizada e irrigada, o custo alcançou R$ 173, com elevada produtividade de 50 sacas por hectare, ante uma média nacional de cerca de 24,5 sacas, segundo último levantamento da safra 2012/13 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Em Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas, o custo foi de R$ 352, com rendimento de 30 sacas por hectare. Em Guaxupé, na mesma região, foi de R$ 370,61 para a produção de uma saca de café com produtividade apurada de 25 sacas o hectare.

Apesar das mudanças na produtividade devido ao fato de a temporada atual ser de ciclo de alta e também por causa do maior desembolso com mão de obra, o custo operacional é muito proporcional ao do ano passado, conforme Mesquita.

O presidente da Comissão de Café da CNA também afirma que Minas, maior região produtora brasileira, viveu praticamente de 2002 a 2010 com prejuízos. Na sua avaliação, os dois anos de preços favoráveis ainda não permitiram que o produtor saísse do “vermelho”. E volta a recordar que uma política de renda para a cafeicultura se faz extremamente necessária. “A boa vontade de todos os atores é grande, mas falta colocar em prática”.

Diferentemente do que diz a maior parte dos analistas, o cafeicultor Luiz Hafers afirma que o produtor não está capitalizado, apesar dos resultados positivos da safra passada. Hafers vai eliminar 30 dos 80 hectares de sua fazenda em Ribeirão Claro, no Paraná. “Não está compensando produzir e investir na cultura”.

Apesar da rentabilidade menor, o presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Silas Brasileiro, afirma que o produtor está mais acomodado com os recursos da ordem de R$ 1,5 bilhão para estocagem a juros baratos, anunciados há cerca de três meses pelo governo. Desse montante, foram disponibilizados até 30 de setembro R$ 742,7 milhões. “Nós aconselhamos os produtores a vender nos picos de alta”.

Fonte: Valor Online