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09 ago 2012

Choque de alimentos

A economia brasileira começa a enfrentar nova parada dura que tem tudo para ser novo choque de alimentos. A estocada no custo de vida de julho, medido pelo IPCA, foi maior do que a esperada. Foi um avanço de 0,43%, bem acima do 0,08% apontado no mês anterior

A economia brasileira começa a enfrentar nova parada dura que tem tudo para ser novo choque de alimentos. A estocada no custo de vida de julho, medido pelo IPCA, foi maior do que a esperada. Foi um avanço de 0,43%, bem acima do 0,08% apontado no mês anterior.

Mas o número mais expressivo não aparece no IPCA, mas nos resultados da primeira prévia do IGP-M. Os preços agrícolas no atacado saltaram nada menos que 4,39% sobre a situação do mês anterior.

Essa escapada reflete a forte alta das commodities agrícolas em consequência da maior estiagem desde 1956 que ataca a mais importante área produtora de grãos do maior produtor mundial, os Estados Unidos. Em somente dois meses e oito dias (até ontem), as cotações do milho avançaram 57%; as do trigo, 36%; e as da soja, 25%.

O avanço do custo de vida mostra o primeiro movimento de transferência desse salto de preços do mercado atacadista para o varejo. Em julho, os preços do grupo Alimentação e Bebidas subiu 0,91% e contribuíram, com 0,21 ponto porcentual, no 0,43% de crescimento da inflação do mês. Agora parece inevitável que se acentue a transferência da alta dos alimentos para o custo de vida.

Além do impacto do choque dos alimentos e do encarecimento dos importados como desdobramento da desvalorização cambial (alta do dólar), o bolso do consumidor deverá enfrentar novo foco de pressões altistas na área dos combustíveis. Os resultados negativos da Petrobrás no segundo trimestre foram suficientemente impressionantes para mostrar que a política de distribuição de subsídios ao consumo de combustíveis é incompatível com os programas de investimento da Petrobrás e com a necessidade de garantir o suprimento de etanol. Ainda ontem, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, reconheceu que os reajustes dos combustíveis ficaram inevitáveis, embora admita que não haja ainda decisão sobre a matéria dentro do governo.

Esses fatores indicam que a conjuntura de crise, fortemente deflacionista até recentemente, deixou de contribuir, como vinha esperando o Banco Central, para a queda da inflação interna. Como a quebra de safras nos Estados Unidos dificilmente será compensada por aumentos de produção de grãos em outros países, não há condições técnicas de que essa alta de preços seja revertida tão cedo.

A questão seguinte consiste em saber até que ponto as novas pressões inflacionárias permitirão que o Banco Central continue dando seguimento à sua política de afrouxamento monetário (queda dos juros). Parece bem mais difícil agora garantir, neste ano, a convergência da inflação para a meta, com o que contava o Banco Central.

Isso não significa necessariamente mudança de rumo na atual política de juros. O governo Dilma parece determinado a continuar a baixá-los. Uma das precondições técnicas para isso seria reforçar o superávit orçamentário para reduzir ainda mais seu impacto sobre os preços. Mas a desaceleração da atividade econômica também está contendo a arrecadação e deixa o governo federal sem muita margem para agir.

17 jul 2012

A economia de carona no agronegócio

No momento em que a economia dá sinais de enfraquecimento, com a previsão de crescimento menor em 2012, o agronegócio caminha no sentido oposto, esbanja fôlego, disposição e promete um ano para ficar na história

No momento em que a economia dá sinais de enfraquecimento, com a previsão de crescimento menor em 2012, o agronegócio caminha no sentido oposto, esbanja fôlego, disposição e promete um ano para ficar na história. A julgar as projeções conservadoras de outros segmentos, a atividade deve, inclusive, aumentar sua participação no desempenho econômico do país e se destacar como a variável que pode frear a tendência de queda do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. E o que é melhor: estamos falando de um potencial traçado a partir fundamentos, com pouca especulação, cenário que coloca as projeções em terreno fértil e seguro, quase que matemático. Isso porque até mesmo o clima, o revés da última temporada, deve colaborar.

O país está prestes a encerrar 2011/12 com a colheita de 162 milhões de toneladas de grãos, resultado que apesar da estiagem que castigou a Região Sul, iguala a marca recorde do ciclo anterior. Mas não foi apenas o clima que marcou a temporada. Com uma supersafra, de 67 milhões de toneladas, o milho supera pela primeira vez o volume da soja. Outro destaque do cereal, o que também é inédito, é que a 2.ª safra, ou a safrinha de inverno, será maior que a safra de verão. Então, não fossem as adversidades climáticas, o potencial de 170 milhões de toneladas seria facilmente atingido e as estimativas sobre PIB nacional talvez pudessem ser um pouco diferentes. Não o suficiente para reverter a tendência de baixa. Mas no mínimo para esboçar uma reação de estabilidade.

De qualquer forma, começa uma nova safra e um novo ciclo econômico, não apenas no campo, como nas cidades. Renovam-se as apostas nas economias rural, urbana, nacional e globalizada que compõem o PIB e sustentam a geração de riquezas de um país agroindustrial. Se na campanha anterior a busca pelas 170 milhões de toneladas foi frustrada no comportamento do clima, em 2012/13 o potencial é de superação, para romper agora as 175 milhões de toneladas. A soja, principal produto do agronegócio brasileiro, não apenas retoma a liderança sobre o milho, como pode render mais que a safra dos Estados Unidos, historicamente os maiores produtores da oleaginosa, e superar as 80 milhões de toneladas.

A depender do resultado das lavouras norte-americanas, o Brasil não apenas consolida sua posição como maior exportador de soja, como tem grandes chances de ser o maior produtor mundial do grão. Entre milho e soja, os produtores dos Estados Unidos devem perder mais de 50 milhões de toneladas para a estiagem que castiga o Corn Belt, região onde está concentrada a produção daquele país. São mais de 46 milhões e de 4 milhões de toneladas, respectivamente. Em fase de desenvolvimento, a safra ainda não está consolidada. Se a chuva não voltar, em volume e regularidade, as perdas podem ser ainda maiores. Ainda que volte, as perdas verificadas são praticamente irreversíveis, com pouca ou quase nenhuma chance de replantio.

Enquanto isso, o mercado segue sustentado e com preços futuros que estimulam o aumento da área e incentivam o investimento em tecnologia no Brasil. Para a América do Sul, em especial Paraguai e Argentina, onde o impacto da seca foi mais severo, é a chance de recuperação. A venda antecipada da próxima safra segue em ritmo acelerado, apesar dos contratos supervalorizados na Bolsa de Chicago. Os negócios para novembro e janeiro se sustentam acima de US$ 15/bushel de soja. Os contratos mais próximos, agosto e setembro, perseguem os US$ 16/bushel, ou US$ 35/saca de 60 quilos. O que faz com que as cotações no mercado interno na conversão direta do câmbio superem os R$ 70/saca, apesar de não existir soja disponível.

O que dizer então do milho. Nunca se colheu tanto milho no Brasil. E os preços resistem, seguem sustentados. Em Chicago fechou a sexta-feira valendo US$ 7,4/bushel, ou US$ 17/saca. Na moeda local, mais de R$ 34/saca, embora a conversão direta no câmbio não espelhe a realidade do mercado interno, a julgar a oferta abundante em plena colheita do cereal de 2.ª safra. Ainda assim, o indicador de preços do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual da Agricultura (Seab-PR) fechou a semana com máxima de R$ 27/saca na praça de Ponta Grossa, um excelente preço, a considerar custo de produção e tamanho da safra no Paraná e no Brasil. A continuar como está, dificilmente o governo federal vai precisar intervir no mercado com leilões de subvenção à venda e escoamento da produção.

A depender do agronegócio, então, o Banco Central poderá até rever a sua previsão de 2,5% de crescimento do PIB. Não necessariamente de reversão da tendência de queda, mas para estancar um possível recuo ainda maior desse indicador. Afinal, a safra 2011/12 não será menor, como apontavam os números oficiais. E a safra 2012/13 será ainda maior, a se confirmar a expectativa, não do governo, mas do mercado.

Fonte: Gazeta do Povo Online