Produtores estão se organizando para tornar o plantio de florestas um negócio tão rentável quanto é a soja

O produtor mato-grossense gosta de desafios. Depois de décadas adaptando soja e algodão para plantio no cerrado, eles conseguiram fazer de Mato Grosso maior produtor nacional de grãos e fibras e um dos principais fornecedores agrícolas no mundo. Atingindo o topo de cada uma das culturas – que incluem ainda o milho –, chegou a vez de expandir ganhos e encarar uma nova peleja: transformar eucalipto em uma commodity tão rentável quanto a soja. No entanto, entre metas, sonhos e a realidade há um abismo de impedimentos e para ultrapassar as dificuldades, como fizeram há cerca de 30 anos ao implantar a sojicultura, buscam-se união e políticas públicas ao segmento.

Estima-se que existam 200 mil hectares (ha) de floresta plantada no Estado, 100 mil com eucalipto, 60 mil com teca, 45 mil com seringueira, 3 mil com pau de balsa e outros 14 mil hectares cultivados com outras espécies como aroeira e pinho cuiabano. Em relação à produção nacional, Mato Grosso ocupa posição de lanterna. Segundo dados do anuário estatístico 2012 – ano base 2011 – da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), são 7 milhões de hectares, superfície equivalente à área destinada à sojicultura 2011/12, no Estado.

Como explica o presidente da Associação de Reflorestadores de Mato Grosso (Arefloresta), Fausto Takizawa, se a área planta estadual estiver no mesmo nível de rendimento do que é observado em nível nacional, a floresta plantada estaria adicionando em 200 mil/ha 135.147 empregos na cadeia gerada pela atividade, assim como R$ 212,96 milhões em tributos e geraria receita – Valor Bruto da Produção (VBP) – de R$ 1,53 bilhão. A média nacional que foi considerada por Takizawa é de 0,68 empregos por ha plantado, assim como R$ 1,06 mil em tributo/ha e um VBP de R$ 7,69 mil/ha. “Existem projeções de expansão para até 2020, cenários conservador, otimista e muito otimista. Mesmo longe de ser realidade neste espaço de tempo, revelam muito bem o potencial que o Estado tem”, destaca Takizawa. Com área de 500 mil/ha em 2020, “cenário conservador”, seriam 337.868 empregos, R$ 532,42 milhões em tributos e R$ 3,84 bilhões de VBP. Numa projeção “otimista” com 750 mil/ha repovoados em 2020, haverá 506.802 empregos, R$ 798,63 milhões em tributos e R$ 5,77 bilhões de VBP. Na estimativa “muito otimista”, com 1 milhão/ha, seriam gerados 675.736 empregos, R$ 1,06 bilhão em tributos e um VBP de 7,69 bilhões.

“Mato Grosso ainda não é uma fronteira para floresta plantada. Há muito potencial, mas precisamos de políticas públicas, de um plano de desenvolvimento florestal que contemple incentivos para atração de indústrias afins que transformem a madeira em produtos nobres. Precisamos de regularizações fundiária e ambiental, logística e seguranças jurídica e tributária para os investimentos que são vultosos”. Como frisa, Mato Grosso está na contramão no quesito tributos e pela falta de política florestal. “Tem empresas que ainda não colocaram os dois pés aqui por falta de um plano específico”.

ESTADO – O coordenador do Núcleo Estadual de Trabalho dos Arranjos Produtivos Locais (APL) da Secretaria de Indústria, Comércio, Mineração e Energia (Sicme), José Juarez de Faria, conta três APLs em regiões distintas do Estado (Portal da Amazônia, Oeste e Centro Sul e Sudeste) e um novo a ser criado em junho (no médio norte), estão embasando a elaboração do Plano de Desenvolvimento Florestal para espécies plantadas e nativas que contempla incentivos fiscais e pontua gargalos e oportunidades Estado afora. “O Plano deve estar implementado ainda no final deste ano ou até o começo de 2013”, informa Juarez.

UNIÃO – Para formar a cadeia de base florestal foi criada no ano passado a CooperFlora Brasil. Com sede em Rondonópolis (210 quilômetros ao sul de Cuiabá), ela nasce com a missão de unir os produtores de eucalipto de todos os portes, visando incentivar a criação de um polo florestal sustentável em Mato Grosso. Esta união visa garantir oferta de matéria-prima em grande e ininterrupta escala, fornecer informações técnicas da atividade e compartilhar experiências de sucesso entre cooperados. Um dia de campo foi realizado no último sábado na fazenda Girassol do Prata para mostrar técnicas de manejo, mercado e tecnologia que existe para o Estado.

Como explica o presidente da entidade, o ex-senador Gilberto Goellner – um dos pioneiros no agronegócio estadual –, somente o sul do Estado detém cerca de 40 mil/ha repovoados e há um estoque de área que não serve mais para agricultura e pecuária que soma outros 500 mil/ha. “A floresta plantada não concorre com nenhuma cultura consolidada e vem como opção de negócios e sustentabilidade. Queremos começar pelo sul-mato-grossense porque aqui há atualmente a maior infraestrutura de transporte em função da Ferrovia Senador Vicente Vuolo. Unindo iniciativas privada e pública, vamos mudar o cenário econômico de Mato Grosso”.

Fonte: Diário de Cuiabá